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Login Registro. Visualizar agora Amostra salva Salvar amostra Exibir sinopse. Quotes from Antes do Baile Verde. Henry Kissinger. Enredo dos contos A janela narra a conversa entre um homem e uma mulher. Christopher Clark. É um livro incrível. É o meu favorito por N motivos. Ao continuar a usar este site, você concorda com seu uso. Em Antes do Bailer Verde, Lygia Fagundes Telles demonstra toda sua habilidade de tecer narrativas profundas, que funcional por camadas, envolvendo a trama de superfície com movimentos emocionais profundos e poderosos. Por que o mundo existe? A morte, o amor e a perda compõem situações envoltas por uma atmosfera perturbadora, quase fantasmagórica. Um Podcast Maravilhoso! Pedro Doria. Chis Ferreira. As personagens arrastam-me pelos ca- belos, me vampirizam, fico exausta. Apanhei esta rosa Leia mais. Vejamos três exemplos. O quê?! Dedicou a história a Guevara com um pensamento importantíssimo sobre a vida e a morte, tudo em latim.

Lygia. Fagundes. Telles. Antes do. Baile Verde. Contos. POSFÁCIO DE. Antonio Dimas Que é que era verde como o mar com seus peixinhos? — O vestido. Lygia Fagundes Telles Antes do Baile Verde Contos POSFÁCIO DE Antonio Dimas Para meu filho Goffredo Sumário ANTES DO BAILE. Antes do Baile Verde – Lygia Fagundes Telles – Reunião de narrativas escritas entre e , Antes do baile verde é considerado por. Compre o eBook Antes do baile verde, de Lygia Fagundes Telles, na loja eBooks Kindle. Encontre ofertas, os livros mais vendidos e dicas de leitura na Amazon. 'Antes do Baile Verde' é um livro de contos da escritora brasileira Lygia Lygia Fagundes Telles Antes do Baile Verde Contos POSFÁCIO DE fuga enquanto uma nuvem preta pareceu baixar sobre seu rosto tão limpo.

O beijo no asfalto. Nelson Rodrigues. A ditadura derrotada. A ditadura acabada. O Fim do Poder. Moisés Naim.

PDF - Antes do Baile Verde

Brasil: uma biografia. Lilia Moritz Schwarcz. Umberto Eco. Contra um mundo melhor. Luiz Felipe Pondé. Camillo Castello Branco. O quarto poder. Paulo Henrique Amorim. Livro das mil e uma noites Volume 1. Fernando Henrique Cardoso. Senhoras da noite. Miguel Sanches Neto. Paulo Henrique Faria Nunes. A Batalha de Moscou. Andrew Nagorski.

Os Argentinos. Ariel Palacios. Antes do golpe. Ferreira Gullar. Reinaldo José Lopes.

A Guerra civil Espanhola. Josep M. A noite do meu bem. Ruy Castro. Michel Houellebecq. Luís Carlos Prestes. O capital no século XXI. Thomas Piketty. Paulo Rabello de Castro. O iluminado. Stephen King. Leonardo da Vinci. Walter Isaacson. Os sonâmbulos. Christopher Clark. Dan Brown. A sombra do vento. Carlos Ruiz Zafón. A Primeira Guerra Mundial. Lawrence Sondhaus. O Vermelho e o Negro. Marcos Napolitano. O livro de Jô - Volume 1. Jô Soares. Reza Aslan. As Primeiras civilizações. Jaime Pinsky.

David Copperfield Português.

Charles Dickens. Eternidade por um fio. Ken Follett. Chico Buarque. Alice Munro. Os Maias. Eça de Queirós. A Década Perdida. Marco Antonio Villa. Vida e destino. Vassili Grossman. A Arte de escrever bem. Dad Squarisi. Max Hastings. Sempre em movimento. Oliver Sacks. Jeff Sutherland. Zeca Camargo. Ainda estou aqui. E singelos como ondas se renovando no mar, aparentemente iguais, só aparentemente. Onde, onde? Olho meu retrato em cima da lareira.

E o efebo de caracóis na testa me pintou toda de branco, uma Dama das Camélias voltando do campo, o vestido comprido, o pescoço comprido, tudo assim esgalgado e iluminado como se eu tivesse o próprio anjo tocheiro da escada aceso dentro de mim. Queria dizer com isso que estava pintando minha alma. Concordei na hora, fiquei até comovida quando me vi de cabeleira elétrica e olhos vidrados.

Nasci naquela noite na praia e naquela noite recebi um nome que durou enquanto durou o amor. Mas por que Luisiana?

De onde você tirou esse nome? Mas antes eu me importava e como. My Last Rose of Summer! E eu me fazia menininha e ria quando minha vontade mesmo era dizer-lhe que enfiasse a pérola no rabo e me deixasse em paz, Me deixa em paz! Onde, meu Deus? Tenho também um diamante do tamanho de um ovo de pomba. Nem Alguém por acaso fica atento ao ato de respirar? Seus sapatos eram sujos, a camisa despencada, a cabeleira um ninho, mas o saxofone estava sempre meticulosamente limpo.

Tinha também mania com os dentes que eram de uma brancura que nunca vi igual, quando ele ria eu parava de rir só para ficar olhando.

Foi também a bandeira de paz que usou na nossa briga mais séria, quando quis que tivéssemos um filho. O céu palpitava de estrelas e fazia calor. Perguntei-lhe se acreditava em Deus. Quando nos levantamos correu até a duna onde estavam nossas roupas, tirou a fralda que cobria o saxofone e trouxe-a delicadamente nas pontas dos dedos para me enxugar com ela. Aí pegou o saxofone, sentou-se encaracolado e nu como um fauno menino e começou a improvisar bem baixinho, formando com o fervilhar das ondas uma melodia terna.

Se você me ama você é capaz de ficar assim nu naquela duna e tocar, tocar o mais alto que puder até que venha a polícia? Minha companheira do curso de dança casou-se com o baterista de um Só vagabundos, só cafajestes!

Pulei gente e sentei-me na cama. A mulher chorava, chorava até que aos poucos o choro foi esmorecendo e de repente parou. Ele estava sentado na penumbra, tocando saxofone. Nunca tinha ouvido nada parecido, nunca ninguém tinha tocado um instrumento assim. E tinha a infância, aqueles sons brilhantes falavam agora da infância, olha aí a infância!

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Em redor, os casais ouviam num silêncio fervoroso e suas carícias foram ficando mais profundas, mais verdadeiras porque a melodia também falava do sexo vivo e casto como um fruto que amadurece ao vento e ao sol. E o saxofone. Contou-me que recebera o apartamento como herança de uma tia cartomante. Ele sorria. É o que eu sou.

E ter um toca-discos de boa qualidade para ouvir Ravel e Debussy. E as sobrancelhas. Comecei a ficar irritadiça, inquieta, era como se tivesse medo de assumir a responsabilidade de tamanho amor. Queria vê-lo mais independente, mais ambicioso. Contudo, exigia. Tenho uma casa de campo, tenho um diamante do tamanho de um ovo de pomba… Eu pintava os olhos diante do espelho, tinha um compromisso, vivia cheia de compromissos, ia a uma boate com um banqueiro.

Enrodilhado na cama, ele tocava em surdina. Enxuguei-os na fralda do saxofone e fiquei olhando para minha boca. Desviei o olhar do espelho. Helga Ela era uma só. É bom dizer logo quem eu sou: Paulo Silva, brasileiro. De Hitler, é bom lembrar. Jugendhaus, era esse o nome dessas casas e pensar nelas me faz pensar em fonte e musgo.

O aço das metralhadoras sem carga encostado no peito banhado de suor. Mas é cedo. Por enquanto é preciso dizer como foi possível acontecer o que aconteceu. Nela fiz mais ou menos tudo o que os outros fizeram e até menos do que vi ser feito em matéria de luta ou crime. De resto, eu e meus camaradas de armas éramos parecidos, menos numa coisa: nunca consegui estabelecer um vínculo entre essa Pintava as do pé, economizando assim o esmalte que naquele tempo era raro como todo o resto, comida, roupa.

Unhas de um tom de rosa delicado, ela gostava das cores tímidas. Arranjei em seguida outros punhais e capacetes que vendia para jovens recrutas americanos que chegaram demasiado tarde e doidos por levarem qualquer suvenir desse tipo.

O pequeno comércio de troféus ampliou-se para cigarros, chocolate, leite em pó e outras latarias, mas tudo muito reduzido. Basta Sua beleza, foi sua beleza o que de início me impressionou. E depois, seu recato, sua doçura naquele mundo de fim do mundo. Foi o velho quem primeiro me falou da penicilina e do quanto um negócio desses poderia render. Também me lembro muito de um outro pormenor: a lata de leite tinha uma risonha vaquinha no rótulo e a outra tinha um rato negro, morto, dependurado pelo rabo por um longo fio.

Foi só numa segunda fase que relacionei a beleza de Helga com o desejo. Fora desse tipo de gente só os muito ricos podiam baixar uma perna igual. Imaginara-a plantada numa perna só, apoiada em muletas ou numa bengala, dando saltos penosos… E cheguei a dizer-lhe que num vestido de noite ninguém notaria a perna artificial. No dia seguinte era domingo e Helga concordou em sair comigo. À noite — era uma noite estrelada — jantamos, ela, o pai e eu, uma lata de rosbife e outra de milho que desviara do meu comércio.

Senti-me generoso, bom. Foi aí que o velho Wolf me falou da penicilina.

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Na cara devastada do farmacêutico vi como seus olhos azuis, iguais aos da filha, coruscavam de entusiasmo ao imaginar o negócio. A segunda dificuldade, a maior, era a mesma de qualquer negócio: o capital inicial. Com os ingleses, nem pensar. Pois sim. Pedi pormenores e ele me falou num certo major-médico, chegamos até a procurar o homem mas ele fora transferido para Hamburgo. E o capital? Via o velho e via Helga, com ela também falava demais e de repente falei em casamento.

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Como é difícil reconstituir os acontecimentos! Mas ordenar os sentimentos é para mim totalmente impossível.

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E lembro muito do casamento. Paul Karsten cometeu seu crime de guerra, pessoal e por conta própria, mas fora do lugar e com a pessoa errada. Tinha os pensionistas e tinha os volantes, uma corja que entrava e saía palitando os dentes, coisa que nunca suportei na minha frente.

Bom, mas eu dizia que no tal frege-mosca eu era volante. Mas aquele saxofone era mesmo de entortar qualquer um. O que me punha doente era o jeito, um jeito assim triste como o diabo, acho que nunca mais vou ouvir ninguém tocar saxofone como aquele cara tocava. Mastiguei mais devagar. James meteu uma batata inteira na boca. Soprou um bocado de tempo a fumaça antes de responder.

Bom camarada esse James. Esperei que ele desse cabo da batata enquanto ia enchendo meu garfo. E novinha. James encolheu o ombro. Nesse primeiro dia fiquei sabendo ainda que o moço do saxofone tocava num bar, voltava só de madrugada. Dormia em quarto separado da mulher. Perguntei onde era o reservado e levantei-me antes que James começasse a escarafunchar os dentões que lhe restavam.

Assim que saí do reservado, dei com ele no corredor, mas agora estava com uma roupa diferente. Fiquei meio tonto. Fiquei olhando. Era magra, sim, mas tinha as ancas redondas e um andar muito bem bolado. De repente riu e apareceu uma covinha no queixo. Fiquei rindo junto. Meus pensionistas fixos costumam comer às oito — avisou ela, dobrando o dinheiro e olhando com um olhar acostumado para a dona de vermelho.

Voltei às oito em ponto.

Animei-me um pouco quando veio um prato de pastéis, tenho loucura por pastéis. Vi quando ela entrou conversando baixinho com um cara de bigode ruivo. Subiram a escada como dois gatos pisando macio. Mordi um pastel que tinha dentro mais fumaça do que outra coisa.

Examinei os outros pastéis para descobrir se havia algum com mais recheio. James demorou para entender do que eu estava falando. Fez uma careta. Decerto preferia o assunto do parque.

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Cruzei o talher. Pela cara vi que era mentira. Paguei, guardei o troco e olhei reto para a porta porque tive o pressentimento que ela ia aparecer. E apareceu mesmo com o arzinho de gata de telhado, o cabelo solto nas costas e o vestidinho amarelo mais curto ainda do que o vermelho. O tipo de bigode passou em seguida, abotoando o paletó. Cumprimentou a madame, fez ar de quem tinha muito o que fazer e foi para a rua. James pediu outra cerveja. Olhou para o teto.

Quando me abaixei, agradeceu, de olhos baixos. Senti forte seu perfume. No dia seguinte cheguei às sete em ponto, chovia potes e eu tinha que viajar a noite inteira.

Subi a escada sem fazer barulho, me preparando para explicar que ia ao reservado, se por acaso aparecesse alguém. Mas ninguém apareceu. Na primeira porta, aquela à direita da escada, bati de leve e fui entrando. Estava sentado numa cadeira, em mangas de camisa, me olhando sem dizer uma palavra. O moço apertou o saxofone contra o peito cavado.

Procurei os cigarros só para fazer alguma coisa. Ofereci-lhe cigarro. Fui recuando de costas. Se ele tivesse feito qualquer gesto, dito qualquer coisa, eu ainda me segurava, mas aquela bruta calma me fez perder as tramontanas. Depois olhei para o saxofone. Ele corria os dedos compridos pelos botões, de baixo para cima, de cima para baixo, bem devagar, esperando que eu saísse para começar a tocar. Limpou com um lenço o bocal do instrumento, antes de começar com os malditos uivos.

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Bati a porta. Fiquei broxa na hora, pomba. Desci a escada aos pulos. Antes do Baile Verde O rancho azul e branco desfilava com seus passistas vestidos à Luís xv e sua porta-estandarte de peruca prateada em forma de pirâmide, os cachos desabados na testa, a cauda do vestido de cetim arrastando-se enxovalhada pelo asfalto.

O negro do bumbo fez uma profunda reverência diante das duas mulheres debruçadas na janela e prosseguiu com seu chapéu de três bicos, fazendo rodar a capa encharcada de suor. A preta deu uma risadinha. A jovem tomou-a pelo braço e arrastou-a até a mesa de cabeceira. Essa fantasia é fogo… Tenha paciência, mas você vai me ajudar um pouquinho. Sentando-se na cama, a jovem abriu sobre os joelhos o saiote verde. Usava biquíni e meias rendadas também verdes.

Falta pregar tudo isso ainda, olha aí… Fui inventar um raio de pierrete dificílima! Espetado na carapinha trazia um crisântemo de papel crepom vermelho. Sentou-se ao lado da moça. A gente vai ver os ranchos, hoje quero ver todos. Afastou os cabelos que lhe caíam nos olhos. Levantou o abajur que tombou na mesinha. Tudo, menos perder o desfile! A mulher enfiou o dedo no pote de cola e baixou-o de leve nas lantejoulas do pires.

Colheu uma lantejoula que escapara e Depositou-a no saiote, fixando-a com pequenos movimentos circulares. Você nem disse nada, sua bruxa! Num movimento brusco, a jovem levantou a cabeça para respirar melhor. É um baile verde, as fantasias têm que ser verdes, tudo verde. Falta mais da metade, Lu! A mulher tentou prender o crisântemo que resvalara para o pescoço.

Franziu a testa e baixou o tom de voz. Um carro passou na rua, buzinando freneticamente. Eu ia com a minha havaiana, mas só porque aparece um pedaço da coxa o Raimundo implica.

Vagava o olhar pelos objetos, sem fixar-se em nenhum. Falou num tom sombrio: — Você acha, Lu? Mas hoje é diferente, Tatisa. É outra coisa. Afastando bruscamente o saiote aberto nos joelhos, a jovem levantou-se. Foi até a mesa, pegou a garrafa de uísque e procurou um copo em meio da desordem dos frascos e caixas.

Achou-o debaixo da esponja de arminho. Soprou o fundo cheio de pó de arroz e bebeu em largos goles, apertando os maxilares. Respirou de boca aberta. Dirigiu-se à preta. A jovem despejou mais uísque no copo. Mil vezes fica repetindo a mesma coisa, taque-taque-taque- taque!

Cantarolou em falsete: Acabou chorando… acabou chorando… — No outro carnaval entrei num bloco de sujos e me diverti à grande. Meu sapato até desmanchou de tanto que dancei.

Neste quero me esbaldar. Lentamente a jovem foi limpando no lenço as pontas dos dedos esbranquiçados de cola. Tomou um gole de uísque. Voltou a afundar o dedo no pote. Quer que Foi deixando no saiote o dedal cintilante. Faça o que bem entender. A jovem foi até a janela e ofereceu a face ao céu roxo. Interromperam a brincadeira para vaiar um homem que passou vestido de mulher, pisando para fora nos sapatos de saltos altíssimos.

Ela assistia à cena com indiferença. Gosto mesmo é de cerveja, mas o Raimundo prefere cachaça. No ano passado ele ficou de porre os três dias, fui sozinha no desfile. Tinha um carro que foi o mais bonito de todos, representava um mar. Você precisava ver aquele monte de sereias enroladas em pérolas. Tinha pescador, tinha pirata, tinha polvo, tinha tudo! E hoje cedo até me reconheceu, ficou me olhando, me olhando e depois sorriu.

Revistou os bolsos de uma calça comprida. Nunca vi ele chorar daquele lado, nunca. Pare de bancar o corvo, até parece que você quer que seja hoje. Por que tem que repetir isso, por quê?

A jovem espiou debaixo da cama. Puxou um pé de sapato. Levantou-se, olhou em redor. E foi-se ajoelhando devagarinho diante da preta. Apanhou o pote de cola. A jovem levantou-se. Chutou o sapato que encontrou no caminho.

Tudo culpa daquela bicha.

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Sua egoísta! Todos esses meses quem é que tem aguentado o tranco? Olhou-se no espelho. Beliscou a cintura. Mas você é só osso, menina.

Ou tem? Ela ensaiou com os quadris um movimento lascivo. Os olhos animaram-se: — Lu, Lu, pelo amor de Deus, acabe logo que à meia-noite ele vem me buscar. Mandou fazer um pierrô verde.

Mas faz tempo. Ele viveu sessenta e seis anos. A preta sacudiu o saiote e examinou-o a uma certa distância. Abriu-o de novo no colo e inclinou-se para o pires de lantejoulas. A jovem demorou para responder. Ela baixou o olhar. Inclinaram as cabeças irmanadas sob a luz amarela do abajur. Apressou-se: — Eu te daria meu vestido branco, aquele meu branco, sabe qual é?

A empregada sorriu, triunfante. Prendeu-o com um grampo que abriu entre os dentes. Levantando-se de um salto, a moça foi até a garrafa e bebeu de olhos fechados mais alguns goles. Vestiu o saiote. Esse uísque é uma bomba — resmungou, aproximando-se do espelho. Sua chata. A mulher tateou os dedos por entre o tule. A jovem ficou diante do espelho, as pernas abertas, a cabeça levantada. Olhou para a mulher através do espelho: — Morrendo coisa nenhuma, Lu.

Ele estava dormindo. A mulher franziu a testa, enxugando na manga do quimono o suor do queixo. Repetiu como um eco: — Estava dormindo, sim. A casa fica mais alegre assim. No topo da escada ficaram mais juntas. Imóveis como se tivessem sido petrificadas na fuga, as duas mulheres ficaram ouvindo o relógio da sala.

Foi a preta quem primeiro se moveu. A voz era um sopro: — Quer ir dar uma espiada, Tatisa?

Subiu poderoso o som do relógio. Foi descendo a Abriu a porta da rua. A Caçada A loja de antiguidades tinha o cheiro de uma arca de sacristia com seus panos embolorados e livros comidos de traça.

Com as pontas dos dedos, o homem tocou numa pilha de quadros. A velha tirou um grampo do coque e limpou a unha do polegar. Tornou a enfiar o grampo no cabelo. Aproximou-se mais.

A velha aproximou-se também. Pena que esteja nesse estado. A senhora passou alguma coisa nela? A velha encarou-o. Por que o senhor pergunta? Rodou-o entre os dedos com ar pensativo. Teve um muxoxo: — Foi um desconhecido que trouxe, precisava muito de dinheiro.

Eu disse que o pano estava por demais estragado, que era difícil encontrar um comprador, mas ele insistiu tanto. Preguei aí na parede e aí ficou. E o tal moço nunca mais me apareceu. Encolheu os ombros. Voltou a limpar as unhas com o grampo. Na hora que se despregar é capaz de cair em pedaços. O homem acendeu um cigarro. Em que tempo, meu Deus! E onde? No primeiro plano, estava o caçador de arco retesado, apontando para uma touceira espessa.

O homem respirava com esforço.