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LIVRO PEQUENAS EPIFANIAS CAIO FERNANDO ABREU BAIXAR


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Chega de promessas, eu quero certezas. Mexeu com a cabeça, como que lamentando, e comentou:. Cinara 30 de março de Que idade você tem? No que depender de mim, a humanidade acabou. A base fica a mesma, mas é preciso aparar algumas arestas. Hare- krishnas andando sossegados pelas ruas; gente variada, com todos os cortes de cabelo e roupas que se possa imaginar. A estada no Rio é o começo do fim do sonho da contracultura para Caio. Por dois meses, ele esperou que alguma idéia aparecesse, alguma coisa bonita para oferecer aos leitores. Estou todo sensível, as coisas me comovem E fez. Uma coisa terrível, horrível, inconcebível, que nos desgosta pro-fun-da-men- te Havia uma praia muito bonita no distrito de Ernesto Alves, perto de Santiago, e também a praia de Jaguari, cidade vizinha.

PEQUENAS EPIFANIAS – Caio Fernando Abreu papawemba.info ri0s3btknvls8nx/Pequenas%papawemba.info?dl=0. Baixar Livro Pequenas Epifanias - Caio Fernando Abreu em PDF, ePub e Mobi. Catalogação na Fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ. Ap 4. ed. Abreu, Caio Fernando, - Pequenas epifanias. visualizações. Compartilhar; Gostei; Baixar AI45 Abreu, Caio Fernando, Pequenas Epifanias – Caio Fernando Abreu – Rio . Assim, o que se lê nesse livro são crônicas escritas emestado de urgência por. Compre o eBook Contos completos, de Caio Fernando Abreu, na loja Encontre ofertas, os livros mais vendidos e dicas de leitura na Amazon Brasil. Clique aqui para baixar a versão Windows Phone do aplicativo . Pequenas epifanias.

Caio, Gringo e Beco também gritam e batem os pés, ao mesmo tempo em que sacodem no ar seus bonequinhos de mocinho. Era uma festa. De tanto irem ao cinema, inventaram passatempos relacionados, como concursos de desenhos para os cartazes dos filmes da semana. Ruy e Caio desenhavam os cartazes e, assim como no concurso de misses, os jurados eram o Gringo, o Beco e a empregada da casa do Caio. Uma vez, tiveram a idéia de fazer um alfabeto duplo, usando as iniciais dos nomes de artistas.

O problema surgiu quando chegaram as letras YeW: onde encontrar um nome cujas iniciais fossem essas letras dobradas? Caio e Ruy se consideravam os melhores desenhistas da turma.

Um dia, porém, viram os desenhos de outro menino, e se espantaram. Os desenhos do Neltair, por acaso, primo de Caio, eram feitos com lascas de telha ou tijolo na calçada, feita de lajes de pedra, como a maioria na cidade.

Caio e Ruy se impressionavam, principalmente, com os gladiadores greco-romanos, pois assistiam a muitos filmes épicos e bíblicos no cinema. Os dois passavam na calçada só para olhar os desenhos. O julgamento artístico dos meninos era bom.

Afinal, Neltair cresceria, adotaria a alcunha de Santiago, em homenagem à cidade, e seria cartunista famoso, dos bons. Havia uma praia muito bonita no distrito de Ernesto Alves, perto de Santiago, e também a praia de Jaguari, cidade vizinha.

As praias e fazendas próximas, de amigos e parentes, forneciam um contato com a natureza de que, anos mais tarde, morando nas metrópoles acinzentadas e sem verde, Caio sentiria falta.

Podiam passar a tarde chupando bergamotas ou brincando na casinha que Caio improvisara com uns compensados de madeira da embalagem de uma geladeira que haviam comprado. A idéia era que fosse um lugar só deles, um pouco inspirado no Clube do Bolinha e da Luluzinha. Na casinha, guardavam os brinquedos, os gibis, os fantoches. Houve uma brincadeira, no entanto, que D.

Nair proibiu os filhos de fazer. A brincadeira, assim como seu nome, foi inventada por Caio: bailu. Havia sempre um cachorrinho pela casa, ou algum outro bicho. Certa vez, alguém trouxe duas corujas. Era uma novidade, um acontecimento.

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Finalmente achei. Rasputin e Cassandra. Calei a descoberta, ocultei o batizado, apropriando-me cada vez mais de sua natureza, embora inconscientemente soubesse da inutilidade de tudo. Mas nem tudo era brincadeira. O primo Neltair, que viria a se tornar o cartunista Santiago, se lembra do preconceito contra o menino Caio na escola, onde, certa feita, alguém fez em um jornal-mural uma caricatura do futuro escritor, aludindo à sua pretensa homossexualidade.

Caio tem oito anos. A subida era pelas laterais, que ficavam em um plano inclinado. Ele tem medo. Sempre esse professor pegando no pé, implicando, exigindo. E outro dia.

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Um dia, o futuro escritor se senta no balanço. Outro menino, também chamado Caio, vem empurrar. Anos depois, o tímido e retraído Caio aprenderia a lidar com essas situações e seria mais enfrentativo. Chegaria mesmo a se envolver em brigas.

Cerca de dois anos após o nascimento de Gringo, D. Nair teve mais um filho. Esse, porém, morreu logo após o nascimento. E sapeca. Luiz Felipe adorava provocar Caio. Mesmo com os garotos crescidos, as peças que Felipe e Caio costumavam pregar um no outro continuaram.

Caio adorava assustar as pessoas: talvez por tédio, por falta do que fazer, quando ele estava em casa sempre pegava as pessoas de surpresa pelos corredores e arrancava gritos de todo mundo. Era noite; quase todo mundo dormia, menos o Caio, que ficava acordado até tarde escrevendo. Em dado momento, ele saiu do quarto, desceu as escadas e foi até a cozinha pegar um copo de leite.

O grito de Caio, apavoradíssimo, acordou todo mundo na casa, ao mesmo tempo em que leite, copo e bolachinhas voavam para todos os lados. Zaél era integrante da maçonaria, e D. Tanto ela quanto Zaél eram muito vaidosos, muito finos, muito "adequados".

Caio brigou com Gringo por ter exposto o nome da família daquela maneira. Pela via da arte, a notoriedade de Zaél e Nair se estenderia a Caio, o filho mais velho, que demonstrara uma personalidade forte e independente desde os primeiros anos.

As meninas faziam fila para ler, como se lembraria o escritor anos mais tarde, quando incluiu o texto na coletânea Ovelhas negras, pouco antes de morrer. Assim termina a história de Adriana e de seu envolvimento com os Saint- Marie, donos de um suntuoso castelo na França: — Oh, George!

Como posso estar feliz? Você me perdoa? Os meninos iam crescendo, começaram a aparecer as primeiras namoradinhas. Certa vez, Caio se apaixonou por uma menina muito bonita que morava perto de sua casa. Ela era aluna de D. Como prova de seu amor, Caio roubou uma prova de História e entregou para a garota. Beco se espantou: só naquele momento é que ele ficou sabendo que o amigo tinha uma queda pela garota.

O espanto acompanharia Caio pela vida afora. Para cada pessoa que o conheceu, um Caio diferente, às vezes oposto ao que outros se recordam. A primeira delas foi Tânia, que morreu de leucemia aos 15 anos. Depois dela, foi a Iara Nicola, filha de D. Lenita, a precursora dos salões de beleza em Santiago, onde as senhoras iam fazer os penteados da época.

As duas estavam sempre por perto a pedido de D. Lenita, que pedia que ficassem de olho no casal. Afinal, Caio, com seus cabelos compridos, era considerado avançado para a época. O colégio era caro e bom. Embora a mensalidade pesasse no orçamento dos Abreu, o filho queria, e D. Afinal de contas, Caio tinha que seguir em frente. Como escreveria depois em Limite branco, seu primeiro romance:. Diz que esteve na enfermaria, com febre e sozinho, e que tem vontade de morrer. Confesso que tive vontade e tenho de morrer.

Isso aqui é um verdadeiro inferno. Responda logo. Agora é que descobri o quanto gosto disso daí. Gosto muito da senhora. E também a sua personalidade, de notórios altos e baixos. Após receber a carta, os pais alarmaram-se e Zaél foi buscar o filho em Porto Alegre, de carro. Na época, era tortuoso e demorado vencer a distância de mais ou menos km que separa Santiago da capital.

Maria, que alugava quartos para estudantes. Por coincidência, morava no mesmo prédio o escritor Manoelito de Ornellas, que era amigo da família de Ruy, que, sempre muito extrovertido, foi logo se apresentando. Logo Manoelito conheceu também Caio e leu seus contos, que o impressionaram muito.

A filha de Manoelito, espírita, enxergava uma aura azul ao redor do Caio, que começou a freqüentar o apartamento do escritor nessa época. Manoelito lhe deu muito apoio: apresentou outros escritores, como Érico Veríssimo. Foi por intermédio dele que Caio ingressaria no Jornalismo. Procurando consolo nos livros, Teresa se apaixona pela história do Príncipe Sapo. No começo tinha nojo dele.

O homenzinho apagado demais, humilde demais, sempre quieto, como consciente do desprezo que provocava, e por isso mesmo mais desprezível. Afastaram-se logo. A dele trêmula, nervosa; a dela hesitante; ambas, encabuladas. Uma semana mais tarde olharam-se nos olhos. Olhos fatigados, de gente quase velha, quase sem ilusões.

Ambos vestidos de preto da cabeça aos pés. Sentavam-se em um banco da praça em frente à universidade e conversavam sobre filmes, livros, discos. Era capaz de discutir literatura como gente grande.

O jovem do livro se muda para a capital, assim como Caio fez, ao ir estudar no IPA. Ele afirma ainda que foi quase impossível reler o livro, mas que, quando o fez, ficou chocado com a inocência do personagem. Enquanto caminhava, descobriu que aquela cor era quase a mesma das pétalas. E do céu. A casa crescia à medida que se aproximava. Ficava mais nítido o verde das janelas, definiam-se as roseiras em torno delas.

De longe, as rosas pareciam palpitar com sua fartura, sua turgidez, sua beleza quase obscena. Participa das discussões, experimenta drogas, deixa o cabelo crescer. O filhinho de D. Além da Magliani, que era a amiga mais próxima, Caio se aproximou bastante da turma do teatro da universidade. Um desses jovens era Luiz Arthur Nunes, futuro diretor teatral e um dos grandes amigos de Caio. Ele e o restante do grupo introduziram o escritor no universo do palco, nos autores, nas peças.

Quando perguntaram a ela qual fora a peça mais recente a que tinha assistido, ela respondeu Depois da queda, de Arthur Miller. O escritor levantou-se, e, sem se preocupar se aquilo iria acabar com suas chances de trabalhar na Veja, fez um fervoroso discurso anti- imperialista.

Chegou a chamar a editora de entreguista. Vera nunca se esqueceu da figura magra, de pé, colérica, discursando. Grande demais. E o asfalto, asfalto por todos os lados.

Onde, os bichos? Tudo era cinza. E a velocidade de tudo. E ainda por cima aquela voz. A voz de criança, de adolescente, fina, feia, desafinada. Um difícil começo, como o fora também para Caetano Veloso, ídolo de Caio, a quem ele dedicaria sua obra de maior sucesso — o livro Morangos mofados, de Era preciso trabalhar, trabalhar o dia todo.

Sem costume de acordar cedo e batalhar de sol a sol, Caio gramou durante os meses em que trabalhou na Veja. Ele, que sempre fora muito magro, perdeu ainda mais peso. Ficava nervoso, irritado; chegou a ficar doente, com gripe, sem coragem de sair de casa. Nessas ocasiões, ele podia se recusar a ver qualquer pessoa ou mesmo a sair do quarto por dias seguidos. E, para piorar tudo, havia a voz. Esganiçada, odiosa, infantil. Consultara um médico, que dissera que suas cordas vocais estavam viciadas no falar infantil.

Muita gente tinha receio dele, nessa época: parecia arrogante, irascível, distante. A voz de Caio, junto com outras preocupações típicas da adolescência, como a magreza excessiva, pode ter inspirado alguns contos do escritor em que os personagens se sentem feios, inadequados, até monstruosos.

Pernas e braços demais, pêlos nos lugares errados, uma voz que desafinava igual de pato, eu queria me esconder de todos.

Só tardezinha saía de casa, na hora que as empregadas domésticas — as dosas, o Pai dizia — estavam voltando da praia. Cinco anos antes, em , os militares haviam instaurado a ditadura no país.

Que estamos todos dentro dele. Mas é um ovo que diminui cada vez mais, cada vez mais, nós vamos ser todos esmagados por ele. Tenho tanto medo. Vou deitar. Estou ouvindo o rumor do ovo se aproximando cada vez mais. É um barulho leve, leve. Quase como um suspiro de gente cansada. Um de seus livros chegaria, mesmo, a ter o objeto no título: O ovo apunhalado. Essa forma mais leve combinava com seu tempera- mento: Caio nunca foi muito de assumir compromissos, de se engajar, levantar bandeiras de qualquer tipo ou causa.

Além disso, o notório senso de humor — herdado do pai, Zaél — se encaixava perfeitamente com a proposta dos tropicalistas. Em tempos de AI-5, contudo, mesmo participações ocasionais eram suficientes para que o serviço de segurança do regime marcasse e perseguisse uma pessoa. Em carta aos pais, enviada da outra casa de Hilda Hilst, março de , ele conta história diferente.

Ana perguntou a Léo o que achava de Hilda. Ela nascera em Campinas, onde a escritora morava, e as duas tinham se tornado muito amigas décadas depois, em , Ana escreveria um livro sobre ela. Quando souberam disso, Caio, Nello e Léo ficaram entusiasmados: pediram a Ana que os apresentasse, e ela acabou levando todo mundo para conhecer a Casa do Sol. Caio voltaria muitas e muitas vezes. Nas primeiras, ficaria hospedado na casa de Ana, mas com o tempo ganhou intimidade e ia direto para a Casa do Sol.

Ao ler Carta a El Greco, de Nikos Kazantzakis, que defende a idéia de que para entender a sociedade é preciso afastar-se dela, Hilda, que namorara Vinicius de Moraes e fora cortejada por Carlos Drummond de Andrade, decidiu abandonar a agitada capital paulista e se isolar no interior para escrever.

Ali o casal recebia os amigos, que ficavam, às vezes, por temporadas inteiras, como Caio. O Caio que entra na propriedade — imponente e tranqüila como a casa grande e antiga em que morou um dia, em Santiago, a centenas de quilômetros dali — é um rapaz tímido, entusiasmado por ser hóspede daquela que ele considera uma das grandes escritoras do país e, exatamente por isso, muito amedrontado também. Inseguro, calado. Queria aprender com Hilda tudo que pudesse, queria sugar dela, do conhecimento e do talento dela, tudo que pudesse, para ser, ele também, um bom escritor.

E foi isso que fez, durante a pequena temporada que passou na Casa do Sol. Deprimia-se, desanimava. E, como dizia, só lia os livros dela escondido de si mesmo, de vez em quando. No resto do tempo, estudavam juntos o movimento dos astros, quiromancia, coisas do tipo. Ela, que dizia ter visto anjos, conversado com os mortos e recebido em seu sítio a visita de discos voadores, ajudou Caio a olhar o mundo buscando sempre algo mais, além das aparências. De Deus. Falavam muito sobre literatura, sobre o processo de criar.

O escritor discorria sobre o assunto sempre que encontrava interlocutores. Gostava de trabalhar a língua, como se nota em seus textos, sempre burilados, lapidados, reescritos. Tanto que, nos anos 80 e 90, revisou e reescreveu a maior parte de sua obra. Teorizava bastante a respeito dos assuntos, e isso explica, em parte, sua precocidade na literatura, ter escrito e publicado ainda jovem, com menos de 20 anos de idade. Uma de suas teorias, por exemplo, era a dos metâmeros.

Na literatura, metâmero era um esboço, de um conto ou de um romance, que continha informações a respeito dos personagens, anotações soltas sobre ambiente, trama, estilo. Ele seleciona dois esboços que lhe parecem melhores e introduz sua teoria aos leitores.

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O primeiro deles se chama A perda e foi escrito em As sombras, enfim. A família de Caio estava morando em Porto Alegre desde , quando Nair insistiu em ir, para que os outros filhos também pudessem estudar com facilidade.

As pessoas doces, calmas; o sotaque familiar: o "tu". E, no Brasil de , o Rio de Janeiro era um lugar onde as coisas aconteciam. Assim, apenas quatro meses depois de ter voltado para a casa dos pais, Caio faz uma visita à cidade sempre maravilhosa. Caio aceitou o convite de Maria Helena, mesmo achando-a um pouco "fora da realidade" e "liriguelha demais"; a oportuni- dade era muito boa para ser desperdiçada.

O apartamento de Maria Helena fica em Ipanema. Como ele foi parar ali? Acho graça, acho muita graça. Ao longo de sua vida, Caio mencionaria sua amizade com Hilda, dizendo que chegara a morar um ano em sua casa. Suas temporadas em Campinas eram intermitentes; duravam um ou dois meses, e em seguida Caio seguia de volta para Porto Alegre, ou para o Rio, ou para onde fosse.

O momento era de inquietude, de viagens, de descobertas. Chegava sempre o momento em que a escritora tinha que chegar para ele e dizer: Caio, sua hora chegou. A partir daquele momento, ele deixaria de ser o jovem tímido, envergonhado de falar com os outros, e passaria a se assumir como adulto.

A voz de Caio, tinha, finalmente, melhorado. A história começou quando ele ganhou um gravador de Hilda e Dante, e com ele pôs-se a fazer exercícios e a gravar a voz, pensando em melhorar pouco a pouco.

A voz nova de Caio era grave, bonita, charmosa. Ao longo dos anos, Caio e Hilda contariam a história da figueira para explicar a mudança da voz. Quando a gente tem um problema muito grave, fala com ela, e ela resolve". De volta ao quarto, teria pegado um livro de Fernando Pessoa e começado a ler em voz alta; no terceiro verso, a voz teria mudado. Tanto ela quanto Caio diriam que o terceiro pedido era, em vez de voltar ao Rio, conseguir ir logo para a Europa.

Era uma noite de lua cheia, belíssima. Três dias depois, a voz mudou. De todas as versões, o que importa é que, até os vinte anos, Caio teve uma voz infantil, esganiçada; aos vinte e um, ela se tornou grave e lânguida e bela. Logo depois, a amizade com Dante foi retomada; ele chegou mesmo a visitar Caio e sua família em Porto Alegre, e o assunto da briga foi deixado de lado.

CALLEGARI, Jeanne - Caio Fernando Abreu - inventário de um escritor irremediável

Mas se divertiu aprendendo algumas coisas. Descobriu, por exemplo, que era exigente demais com os textos a serem encenados. Isso mudaria alguns anos depois, quando, depois de rodar o país e parar de novo em Porto Alegre, em , Caio participou como ator de algumas peças. Em Serafim, o papel era de Batman; em The black grove, vestira-se de mulher. E por aí afora. Mas estamos em Mas essas experiências, em vez de deixarem o escritor feliz, deprimiam-no ainda mais.

A história da mescalina foi descoberta pelos pais, o que causou o maior rebuliço; as bacanais faziam Caio se sentir um lixo, no fim da noite. O final do conto, e do livro, traz uma esperança: a escolha pela vida. Por continuar. A lâmina vibra entre os dedos.

Nenhum pensamento. Só espera. Dobra os ombros, como se chorasse. Joga a lâmina pela janela, vai-se curvando para si mesmo. Os braços se cruzam, enlaçam os joelhos, a cabeça afunda entre as pernas.

No cinzeiro, o cigarro esquecido queima. Sem compreender, vaga entre a fumaça e tomba. Como um cego, vendo apenas para dentro. No fim do ano, a maré começa, mais uma vez, a soprar a favor de Caio. Ele passara um ano ruim, cheio de carências e inseguranças. Para espantar a tristeza, resolveu ir para a praia com alguns amigos. Escreveu uma exultante e empolgada carta a Hilda. Na mesma noite, porém, aconteceu algo que o faria retomar a carta e escrever mais um pouco.

Caio conheceu Clarice Lispector. Moderna, revolucionou a linguagem. Caio termina de escrever para Hilda. Vi uma mulher linda e estranhíssima num canto, toda de preto, com um clima de tristeza e santidade ao mesmo tempo, absolutamente incrível. Era ela. Ele fica, conversam um pouco.

Falam de Nélida Piñon, de Hilda. Caio aproveita o interesse dela e lhe entrega um exemplar sobres-salente do Fluxo-floema que, por acaso, ele tinha na bolsa. Tem olhos hipnóticos, quase diabólicos. O ano novo chegava. Em , Caio volta ao Rio. Com três garotas e um rapaz, aluga uma tranqüila casa em Botafogo. Ele acredita que tudo pode dar certo, que morar em comuna é a melhor maneira de se viver.

Surgem assim alguns dos contos de O ovo apunhalado, obra que só viria a ser publicada em A estada no Rio é o começo do fim do sonho da contracultura para Caio. Para piorar um pouco mais as coisas, ele é preso. Flagrante falso de maconha. Só de ida. Enfim, nem tudo eram flores.

Mas Caio tem sorte. Vera tinha quatorze anos quando conheceu Caio, em Era o lançamento de Limite branco, primeiro romance do escritor, pronto desde Chega mesmo a considerar a hipótese de se assentar, casar, ter filhos, um lar, uma família.

O que viria em seguida? Dali a pouco, ele teria um carro do ano, um apartamento com vista para o mar e estaria preocupado em pagar as prestações e a mensalidade da escola das crianças. E a vida de escritor, seu trabalho, sua carreira, era tudo que importava. O ano de foi todo dedicado a essas experiências. Caio estava em uma de suas fases ruins, deprimido.

Caio reencontrou-se. Assim feliz, gostando de viver, Caio começa a trabalhar no jornal Zero Hora como copidesque, com o intuito de juntar dinheiro para viajar.

Entre as horas de trabalho que passava no jornal, Caio planejava sua viagem e continuava a escrever. Provar-lhes a atualidade da desacreditada palavra com a própria palavra, quando a serviço de uma técnica rica de recursos. Oferecem para quem quiser compreendê-los, porém as pessoas têm medo do novo.

Apenas uns poucos escolhidos se salvam. O que os seres dizem é um atestado da maneira como Caio levava sua vida. Havia também Lucrécia, um gay espalhafatoso de quem Caio gostava muito, e Graça Medeiros.

As pessoas saíam juntas, fumavam maconha, iam a bares. Conversavam sobre os assuntos da época: filmes, livros, discos. Falavam mal da ditadura. Juarez Fonseca lembra de ouvi-lo comentar: — Todo homem com mais de trinta anos é um canalha. Juarez Fonseca freqüentara a universidade na mesma época de Caio, só que seu curso era outro; enquanto Caio cursava — ou tentava cursar — Letras, Juarez fazia Jornalismo. Na faculdade, Juarez era da equipe do jornal do centro acadêmico, O coruja. Caio começou a colaborar nos projetos de que Juarez fazia parte, como o jornal Exemplar, influenciado por O Pasquim, Veja — na época ainda considerada inovadora — e, principalmente, pela revista Bondinbo.

O pessoal queria mais era sair fora. E saíram. Chico Buarque também. Era um grupo de seis pessoas. Juarez e sua esposa, Sônia Azambuja, casados desde O dia é 28 de abril de Vera e Henrique foram vê-lo antes da viagem e, embora um vidro os separasse, foi muito bom encontrar os amigos. De Henrique, dizia ter pressentido que ele tinha QI de gênio. Era assim que aquele trio se sentia, logo antes de deixar o Brasil rumo a aventuras desconhecidas.

A escala é em Madri, onde planejam ficar umas duas semanas. Caio quer tirar carteira internacional de estudante e ver Bosch no Museu do Prado. A obra do pintor holandês nascido em tinha alguns pontos de contato com a do escritor. Lembremos que a própria literatura que Caio fazia, nesse momento, estava impregnada desses elementos.

Como no conto O ovo apunhalado, em que um ovo sai de uma moldura e persegue o personagem:. Quando tornei a me voltar, ele continuava ali, a casca branca, as linhas mansas de seu contorno: um ovo. Hesito um pouco, mas fecho os olhos no mesmo momento em que meus dedos se cerram em torno do punhal. Estavam numa esquina da cidade quando viram passar Caio e os amigos que tinham ido com ele. Todo mundo olhando. Se hospedaram em um hotel na esquina da casa onde morou Picasso. Era ainda época de ditadura no país, e se ouviam relatos de torturas e fuzilamentos.

Bonito mesmo Caio só achou o bairro gótico, com catedrais com mais de anos e casas de Hare- krishnas andando sossegados pelas ruas; gente variada, com todos os cortes de cabelo e roupas que se possa imaginar.

Bares charmosos, onde grupos de pessoas se reuniam para tomar vinho; mulheres elegantes, requintadas. Era o paraíso. Caio Fernando Abreu tinha nove anos de idade e estava passando uns dias na casa de seus avós. Em dado momento, ele vira para o avô Aparício Medeiros e diz: — Um dia, quando eu for grande, vou morar na Suécia. O avô, é claro, morreu de rir. Qual seria a cara dele agora, que Caio estava mesmo indo morar em Estocolmo?

Os estudantes estavam de férias, e os estrangeiros se hospedavam no que usualmente eram seus alojamentos. Ficaram uns seis dias nessa residência, e depois se mudaram para outra, um pouco maior.

Aos poucos, todos iriam se estabelecer, arrumar empregos: Juarez iria trabalhar no restaurante Catelin; Caio também iria lavar pratos, em outro lugar; Sônia arrumaria emprego em um hotel, e Sandra Laporta em outro restaurante. Aos poucos, também, todos iriam se ajeitando e conseguindo moradias individuais ou em duplas. O grupo estava sempre junto, fosse na "casa" de um ou de outro.

Encontravam-se depois dos respectivos trabalhos e iam beber, conversar, fazer comida. Sandra também se saiu bem — roubava camarões do hotel onde trabalhava e trazia para casa. Juarez nunca pegou nada. Caio também tinha medo, mas pegou uma coisinha aqui e outra ali. No dia seguinte, Caio e Augusto tomaram o tal pink, e embarcaram numa viagem incrível.

Juarez pegou carona, e ficaram todos pirando cor-de-rosa, numa boa, até o efeito passar. Uma beleza de bosque: jardins cheios de amores-perfeitos e tulipas, esquilos passeando tranqüilos, junto com ovelhas e cervos. Esse tem um insight e grita, extasiado: — Puxa, o Caio parece o Jesus Cristo!

O mundo à sua volta, o bosque, o fiorde ali do lado com o castelo do rei Gustavo Adolfo, tudo, tudo perde o significado. A viagem ruim começa pra valer. E passou mesmo. Depois de sete horas. Na volta à terra, o grupo foi para a casa de um português ouvir discos.

Caio falava e falava, analisando a viagem do amigo, possíveis significados, as descobertas de si mesmo e dos outros por que Juarez tinha passado.

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Ele mesmo era muito sujeito a badtrips, com seu temperamento depressivo, e tinha passado por umas terríveis em Porto Alegre. Mas ali, junto aos amigos, num país distante, essas lembranças ruins pareciam distantes. Ali, longe do Brasil, as coisas pareciam possíveis. A idéia de paraíso na terra deve ter desmoronado para Caio mais ou menos dois dias depois do piquenique no parque, quando ele encontrou o primeiro emprego, aquele de lavar pratos.

Era em um bar, no centro de Estocolmo. E também garfos, facas, bandejas, copos, panelas. O detergente lavava também toda a arrogância que Caio pudesse sentir.

Claro que, quando aquela vontade de viver novas experiências passasse, e a temporada chegasse ao fim — e chegaria, como todos sabiam —, Caio poderia voltar para a casa dos pais e viver uma vida de odalisca outra vez, sem maiores preocupações. Mas, por enquanto, o momento parecia duro demais para enfrentar. E Caio, dramaticamente, bem ao seu estilo, decidiria que o menino cheio de esperanças que ele fora um dia morrera ali, na cozinha de um bar no centro de Estocolmo, lavando louça.

No dia 18 de julho, Juarez e Sônia foram embora. Juarez estava triste. Caio foi se despedir deles. Chegaria também sua vez de partir, e ele também, talvez, se sentisse triste. Fora assim com Madri. Estava sendo assim com Estocolmo e provavelmente seria assim com Londres, que ele tanto ansiava em ver.

Esse era Caio: sempre achava um jeito de colocar defeito no lugar onde estava. Sentia-se um estrangeiro onde quer que fosse, sem possibilidade de cura. Depois de ter dado um pulo na Holanda e na Bélgica, Caio estava, finalmente, em Londres.

A cidade parecia saída de um livro de Virgínia Woolf, e era maravilhosa, bem diferente da dura Estocolmo, onde as pessoas eram fechadas demais. Durante todo o tempo em que esteve viajando, Caio e Vera Antoun continuaram se correspondendo. Trocaram cartas amorosas, interessantes, em que ele contava suas experiências e suas mudanças de humor. Falava, por exemplo, de Nelson, um dançarino cubano que ele estava meio que namorando.

Nesse ponto, era defensivo, incapaz de se comprometer. Quarto: ele estava ficando careca, entradas enormes na cabeça; o cabelo lindo e escorrido de índio estava indo embora. Em abril de "Tenho medo de te ferir. Mas acho que precisamos 'falar seriamente'. Desculpe, mas acho que sim, sem fantasia, sem comicidade. Caio escreveu muitos textos sobre o relacionamento entre duas pessoas, tanto sobre relações hetero como homossexuais. A seu modo, experimentou de tudo. Assim, acabava, quase sempre, sozinho.

A incomunicabilidade, comum entre pessoas que se gostam, foi explorada em um texto de O ovo apunhalado, Para uma avenca partindo:. Além de arrebentar esperanças e se engraçar com rapazes cubanos, Caio continuou em Londres com os pequenos roubos em lojas. Coisa pequena. As lojas grandes de onde roubavam nem sentiriam o prejuízo. Por causa dos dois volumes de uma biografia imensa sobre Virgínia Woolf, Caio e Homero passaram a noite na cadeia e foram condenados a pagar 30 libras de multa.

Era mais do que Caio ganhava por semana na escola de Belas-Artes; mas apertando aqui e ali, dava para pagar. É, estava na hora de voltar para casa. A frase foi escrita por Caio Fernando Abreu no espelho de seu quarto em Porto Alegre, em julho de Ele só acreditava nele mesmo e em Yoko Ono; o sonho acabara.

O ano de ia longe. Os dias de Caio na Europa também. De volta ao Brasil, ele percebia o quando tinha reclamado de barriga cheia enquanto estava viajando. O clima claustrofóbico da ditadura continuava, embora amenizado, com a abertura começando a se esboçar. Ninguém se entendia, as referências eram outras. O clima estava ficando pesado também no quesito drogas: muita gente estava começando a pirar, internações em clínicas, coisas assim.

É, era o Brasil. Por que mesmo ele tinha decidido voltar? Readaptar-se era difícil. Bono era um psiquiatra diferente dos outros: era, na verdade, um anti- psiquiatra.

Só faltava aprontar o enterro. E uma das coisas que havia para se fazer em Porto Alegre, na metade da década de , era colaborar com a imprensa alternativa.

Eram jornais que, justamente por serem independentes, podiam se dar ao luxo de dar espaço a críticas e inovações. Entre e existiu, por exemplo, o jornal Exemplar, comandado por Juarez Fonseca, em que Caio Fernando Abreu chegou a colaborar algumas vezes. Por dois meses, ele esperou que alguma idéia aparecesse, alguma coisa bonita para oferecer aos leitores. Depois de consultar o amigo Giba Rocha, descobriu que muita gente tinha gostado de entrevistas que ele tinha dado, entrevistas veementes em que Caio assumia suas posições peculiares com firmeza.

Mas no momento, essa era uma responsabilidade grande demais para ele. Eu disse: quaisquer.

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Se Caio estava mal, em parte a culpa era dele. Estava bebendo de sua taça, como gostava de dizer. Se havia bad trips, ora, era por causa das drogas.

Se a ditadura existia, era porque Caio provou desse veneno em , quando foi preso em Garopaba, no litoral catarinense. Dessa vez, eram dez ou quinze pessoas, entre elas Graça Medeiros, Caio, Jaime. Tocavam flauta, entravam no mar, conversavam, riam. Minutos depois, estavam presos. Queriam que ele depusesse contra Graça, que era o verdadeiro alvo, a pessoa em quem realmente estavam de olho, por questões políticas.

Como Caio, muito dignamente, se recusasse a falar, soltaram-no. E a quem o boca-grande do Caio dedica o conto? A Graça Medeiros. A epígrafe do texto é um trecho do conto Garopaba meu amor, de Emanuel Medeiros Vieira, escritor catarinense. Depois de ter sido preso e solto na despedida de Jaime, Caio passou uns tempos na casa de Emanuel, em Garopaba.

Mastigamos em silêncio as chicotadas sobre nossas costas. E os corações de vidro pintado estalam ainda mais alto que as ondas quebrando contra as pedras. Bofetada na face esquerda. Bofetada na face direita. Pontapé nas costas. O leiteiro Em , tinha trabalhado com o grupo Província na peça Sarau das 9 às Os dois chegaram a morar juntos por um ano, em , no apartamento de Luiz na rua Jerônimo Coelho, de onde Caio só sairia para a famosa casa da rua Chile.

A parceria com Luizar — como Caio o chamava — era boa, fluía. Um escrevia uma frase, o outro mais uma, e assim sempre, na maior facilidade.

Como a experiência desse certo com o Sarau Ou os quatro cavaleiros do Apocalipse. Quem sabe é Mona com os extraterrestres? Eles vêm nos buscar também. LEO — É a polícia. Tenho certeza que é a polícia. Os monstros, com aquela pele toda verde, apodrecendo e caindo Eles vêm nos matar porque nós sobrevivemos. Nós tínhamos o direito de sobreviver ao fim do mundo. Esses escritores se correspondiam, trocavam informa- ções, impressões, tentavam ajudar uns aos outros dentro de suas capacidades, mostrando o texto dos amigos para outras pessoas, escrevendo resenhas positivas em jornais e revistas.

Na época, ninguém lia Hilda Hilst. Eles eram amigos de conversar sobre literatura, cinema. Nei era jornalista. E seria Juarez também que, anos depois, junto com Caio, iria na casa de Nei e o ajudaria a editar o livro Outubro.

Os três separaram os poemas por tema, organizaram o livro. Caio leu um poema do qual gostou muito, e perguntou em quem o poeta estava pensando quando escreveu. Caio o aconselhou a arriscar. Nada teria a perder. Nei seguiu o conselho e nomeou o poema Mario Quintana.

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Antes de Mario Quintana ver o poema, porém, o livro tinha que ser publicado. Alguns conheciam sua poesia de vê-la declamada nos encontros de estudantes, mas, no geral, ele era um autor marginal. Vê-lo publicado com capricho pelo governo do estado, em plena ditadura, era algo para se comentar. Os outros poetas podiam pensar: ei, se o Nei pode, eu também posso. Mais coisas precisavam ser feitas. Assim, para combater a política conservadora das editoras, os autores começaram a se unir e a produzir antologias, algumas pagas do próprio bolso.

Uma dessas antologias, porém, iria causar a Caio uma enorme dor de cabeça. E justo aquela que lhe daria mais visibilidade: a antologia publicada pela Codecri, editora de O Pasquim.

Pouco tempo antes, o nanico mais influente do país tinha decidido criar uma editora, a ser dirigida por Jeferson Ribeiro de Andrade. Em segundo, viria uma antologia de doze contos de autores novíssimos, gente que vinha se destacando pelo talento precoce. Entre os seis autores escolhidos estava Caio.

Naquela época, ele editava suas revistas, escrevia seus romances e contos, se correspondia com outros autores. Um desses escritores era Caio Fernando Abreu. Caio mandou, eles continuaram a se corresponder, ficaram amigos. E, em , foram convidados para fazer parte da antologia Histórias de um novo tempo, da Codecri.

A princípio, as coisas tinham tudo para dar certo. Os autores da antologia se correspondiam, trocavam impressões; todos amavam a literatura, todos se revoltavam contra alguma coisa, embora as semelhanças parassem aí. Essas diferenças, no entanto, iriam se agravar com o tempo. Em março de , por exemplo, Emediato enviaria a ele uma cópia do Manifesto Neo-Realista, criado pelo grupo para dizer ao mundo o que eles pensavam sobre literatura.

Assim, uma das primeiras coisas que Caio leu do documento foi a frase: "contra O individualismo". Agora ele estava melhor, mas graças a quê? A analisar o ego. O eu, o indivíduo. Imagina, ser contra o individualismo. Que idéia.

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Afinal, ainda gostava muito do pessoal que sairia na antologia. Mesmo assim, escrevia os tais contos, pouco preocupado com o que pudessem pensar; Caio lera alguns desses textos, e achou que havia esperança. Foi visitar Emediato em sua casa, em Belo Horizonte. Tudo correu bem, a amizade se fortaleceu. Agora faltava encontrar o resto do grupo. O encontro com os outros paladinos aconteceu no lançamento da antologia, no Rio de Janeiro. Nada de mal até aí. Mais dez mil exemplares saíram, e acabaram logo.

A coletânea era um sucesso, sob todos os pontos de vista. Os autores foram entrevistados pelo tablóide, e o texto saiu.

E saiu editado, com trechos cortados, para que coubesse no jornal, como todos os textos. Na sua cabeça, só trechos dos seus depoimentos tinham sido cortados; toda a parte em que ele falava de homossexualismo teria ficado de fora, por exemplo.

Intempestivo, escreveu uma carta ao jornal, manifestando toda a sua raiva. A grana era boa, e ele decidiu viajar com a esposa Sylvia. O filho de oito meses ficou com a avó, em Minas. O suficiente para que Emediato entendesse a mensagem. Emediato ficou constran- gido, Caio decepcionado. Ah, e é claro: sofrendo bastante, vivendo e sangrando e amando, Caio teria vivência para escrever.

Teria assunto. Mas aí as coisas estariam mudadas: ele passaria a considerar Emediato careta demais, certinho demais para ser seu amigo.

Mas em , Caio e Emediato ainda estavam muito ligados. Edla havia organizado um jantar fechado, do qual participariam apenas alguns escritores. Caio estava entre os convidados, era um dos oficialmente inscritos no evento. Quando o grupo tentou entrar no tal jantar, Edla vetou. Muitos desses textos seriam lançados mais tarde, na década de 90, quando Caio organizaria a — aí, sim — coletânea Ovelhas negras, com textos escritos dos 14 aos 46 anos de idade.

É o domínio da palavra escrita. Como um ritual. Uma ciranda, daquelas em que uma criança entra dentro dessa roda, diz um verso bem bonito, diz adeus e vai embora.

As cartas continuam queimando. Eu tentei pensar em Deus. Mas Deus morreu faz muito tempo. Talvez se tenha ido junto com o sol, com o calor. Estranho estrangeiro, sem paz fora da própria terra, incapaz de viver nela. Em Porto Alegre, ele tinha emprego no jornal, escrevia suas coisas para teatro, encontrava alguns amigos.

Ainda assim, faltava algo. Era, mais uma vez, hora de levantar vôo. Encostado no carro, estava aquele rapaz de calça de couro, jaqueta, gestos finos, elegantes. Alto, muito magro, cabelos escuros. Uma nuvem preta o acompanhava, uma nuvem de melancolia, aonde quer que fosse. E quem o via pela primeira vez, encostado no carro, e notava sua calça de couro preta, era Celso Curi, jornalista e agitador cultural. Um breve caso, como se podia dizer sempre das relações de Caio, mas intenso — queriam engolir um ao outro, se tocar, se cheirar, como disse Celso, mais tarde.

Mas a brincadeira pegou. Ele mesmo podia assumir um nome feminino, como Marilene mesmo, e aí era Marilene falando com Marilene, uma loucura. Os amigos liam aquilo, se divertiam, e depois ligavam dizendo: — Ei, vou cobrar direito autoral.

Duran, Okky de Souza. Caio e Maria Rosa se tornaram muito amigos. De vez em quando saíam para jantar. Em , quando Laura, a filha de Maria Rosa, nascesse, Caio ajudaria a dar o primeiro banho. Lady Laura, ele a chamava. Celso morava sozinho em um apartamento na Cristiano Vianna, havia um quarto sobrando. Caio topou na hora. E foi aí que o encanto quase se desfez, e Fraser e Gomide correram perigo. Depois batia-lhe o arrependimento, ligava, murchinho, vira-lata com rabinho entre as pernas, pedindo mil desculpas, mil perdões.

Ele tanto podia aparecer com flores ou mandando as pessoas para aquele lugar; era absolutamente impossível prever seu comportamento. Quando estava bem-humorado, todos se divertiam; sua capacidade de fazer rir, tiradas mordazes e irônicas, era infinita. E aí ele era elegante, fino, um gentleman. E havia aquela estranha necessidade de ficar sozinho de vez em quando, que viria a ser um tormento a vida toda para quem dividisse casa com ele.

Para Celso, eram momentos apreensivos. Mas quando ele resolvia sair, Fraser e Gomide saíam com ele, o bom humor nas alturas. Aí Caio podia contar piadas, falar de astrologia, botar o taro.

Uma vez Caio botou as cartas para Celso. Mexeu com a cabeça, como que lamentando, e comentou:. Você nunca vai enlouquecer. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. A primeira fase de Pequenas epifanias foi publicada no jornal O Estado de S. Paulo entre e É aí que sua escrita de cronista se torna mais visceral, mais atada aos fenômenos da vida e da morte. Pequenas epifanias foi publicado originalmente em , poucos meses depois da morte de Caio.

Leia mais Leia menos. Contos completos. Ovelhas Negras. Cartas: Caio Fernando Abreu. Noites Brancas. Text: Portugese. Quais outros itens os consumidores baixaram após visualizar este item?

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