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Consultado em 21 de novembro de ? MC Maneirinho. Fiquei contente que me escreveu e também abismado, com esse trabalho "transpsicodélico" ou "neopsicodélico" se é que podem existir estes termos. Pensei que pudesse fazer algo meio Michel Legrand, meio Tom Jobim, com um molho de rock, mas o buraco era mais embaixo. Sendo assim, depois de mais de duas horas de atraso, fizemos o show para mais de oito mil pessoas. DJ Zullu. Rebatidos, eles criam uma superfície plana capaz de engolir bagagens maiores. You are the doorway to the season that awakens my soul

REBOLADA DE GAMA BAIXAR - Mais Acessados Ordem Alfabética. E foi em 97, jogando pelo Botafogo, Dimba teve um dos momentos mais marcantes de sua. BORA BAIXAR A MÚSICA "REBOLADA DE GAMA" O/ VAMO BOTA PRA TOCA NO CARRO, ARREGAÇAAAAA! papawemba.info Rebolada de Gama - Léo. REBOLADA DE GAMA BAIXAR - Guia de origens da Libertadores As batateiras, grupadas em plena floresta, formavam a rebolada. Tadic exibiu no Bernabéu. A. A NUMERO playsbaixar K. KUANDEUMANDÁ playsbaixar O . OLHA O REBOLADO DESSA NEGA playsbaixar. Clique agora para baixar e ouvir grátis MARCOS GABRIEL O PANCADÃO DO FORRÓ CD postado por lindomar gama de santana em 10/06/, e que já está com Downloads e olha o rebolado Baixar;

Na segunda metade da década de , o escravismo é que se veria assoreado, enquanto o repertório moral abolicionista ia se encarnando no senso comum. Retóricas que dividiram o país em dois lados. Um, dos que se compadeciam do sofrimento alheio, que se alinhavam com o direito e a marcha do progresso.

Nós, sensíveis, civilizados, modernos. Os justos e os produtores da injustiça. Duas identidades políticas contrastivas, abolicionistas e escravistas, os que estavam com Rebouças, os Paulino.

O esquema interpretativo do direito casou-se logo e bem com a estratégia de Luís Gama. No Radical Paulistano , em , escreveu que as vozes dos abolicionistas têm posto em relevo um fato altamente criminoso […]. Gama foi salvar seus iguais, escravos ilegais como ele fora, por meio de processos judiciais. Procedimento singelo: estabelecendo a data de ingresso no país, estabelecia a ilegalidade do título de propriedade do escravo.

Valia-se do tratado de com a Inglaterra para anular no tribunal títulos de propriedade de africanos livres e de sua descendência. Efeitos inesperados.

Após , Gama passou a usar sistematicamente o habeas corpus, valendo-se de artigos da Lei do Ventre Livre. Essa foi uma das muitas ações de liberdade que ganhou: libertou ao menos quinhentos Joões Carpinteiros. Ao advogar tantas ações de liberdade, Gama ganhou notoriedade, inimigos, emuladores. Todo um estrato social inferior na sociedade imperial, de pequenos comerciantes e empregados em serviços pouco valorizados. Assim o abolicionismo, que começou de elite, diversificou-se socialmente.

Contudo, o estilo Gama, consistindo no uso da lei, requisitava advogados, que eram a nata da sociedade. Assim, a estratégia se difundiu graças à lei de , que, Eduardo Pena argumenta, facilitou as ações de liberdade, ao transferir a alforria do reino da vontade senhorial para o aparato da justiça estatal. O sucesso da estratégia daí por diante dependeria da receptividade de promotores e juízes, mas seu uso cresceria e muito.

Os abolicionistas, contudo, deram-lhe uso político. O artigo 5o garantia às associações o direito de baixar alforrias. A isso se somaram iniciativas a contrapelo da legalidade. Três modelos de abolicionismo.

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O caminho do estadunidense John Brown era uma derivada. E em seu retrato dos anos , seus olhos brilham a febre de John Brown em sua véspera de revolta. Assim foi com Rebouças. Em muitos casos, apenas se ativou em face de uma experiência concreta, de um choque moral , que acendeu na subjetividade o sentimento de injustiça. Rebouças, nos anos , operou por lobby político, construindo pontes entre abolicionistas da elite social e potenciais aliados nas instituições políticas.

Falta-lhe ainda a alma empenhada de Gama. Foi em que se atou ao abolicionismo pelas vísceras. Tinha acesso a chefes de governo e à família imperial. Isso mudou em Nova York. E assim também em Viena e Paris. Na volta, em junho de , aportou nos Estados Unidos. Em 16 de junho dormiu com fome, tal o veto dos restaurantes. Fugiu para a Pensilvânia. Mas sua identidade estava trincada. Os Estados Unidos partiram seu espelho. Isso Rebouças aprendeu, literalmente, na carne.

Douglass era contraexemplo vivo do argumento da inferioridade dos negros, ativo, inteligente, lobista eficaz e propagandista de primeira. Eram parecidos. Só faltava Rebouças se tornar para o Brasil o que Douglass fora para os Estados Unidos: o maior dos abolicionistas negros.

Tem gente que nasce com patrimônio no nome. Quem é, como Paulino, um Soares de Sousa, tem meio caminho andado. Mas que destino aguarda os sem nome? A Zeca deu muito menos; integrou-o, contudo, à vida familiar, entre o engenho da Fazenda da Lagoa de Cima e a casa na praça da Matriz de Campos, no interior da província do Rio de Janeiro.

A cavalo, certo dia, Patrocínio irritou-se com a lerdeza de um velho escravo em abrir a porteira e, enfurecido, golpeou-lhe a cabeça com o cabo de prata do chicote, abrindo um corte.

O estilo de ativismo político que ela orientaria se aclarou noutro episódio na Lagoa de Cima. Tentou salvar um escravo dos açoites do feitor.

Primeiro interrompeu-o aos gritos. Logrou sucesso quando se pinchou da escada e fez sangrar a própria cabeça. Entabulou relações com boas famílias, onde achou sempre mesa posta e cama feita. Esse segundo protetor era enteado de militar republicano, algo abonado, com filhas casadoiras. Patrocínio se engraçou com a espoleta da casa, Maria Henriqueta, a Bibi.

Vagava pelas panelas Liberais. Um professor da faculdade o reprovou por razões veladas. Barrado no meio do caminho para médico, Patrocínio deixou os bancos escolares, em , com diploma de farmacêutico. Em , com um colega de faculdade, criou Os Ferrões. Toada prosseguida em O Mequetrefe , onde conheceu jovens literatos, como Aluísio Azevedo. Nessa pequena imprensa, assinava com o apelido de Zé do Pato. Ficaram amigos. Um fazendeiro e quatro de seus escravos tinham sido condenados, em , pelo assassinato de uma família que vivia em suas terras.

O homicida efetivo se revelou em seu leito de morte, inocentando os executados. Narrativa temperada com experiência pessoal: entremeou no enredo o romance proibido entre moça branca e moço negro, bem na hora em que os pais de Bibi descobriram seu namoro. Viagem de repórter, equivalente para Patrocínio às jornadas de engenheiro de Rebouças: descobriu o país.

Nessa cobertura fez parceria com o desenhista Rafael Bordalo Pinheiro, que convertia suas fotos em desenhos publicados em jornal menor, O Besouro. Nessa viagem nasceram muitas das amizades que Patrocínio firmava num piscar de olhos, todas de valia na campanha abolicionista. Em , vagando pela cidade armado de uma navalha, acabou no xadrez. Três alianças facultaram transformar suas insubordinações difusas contra injustiças sociais em militância tenaz e focal contra o escravismo. Um casamento foi literal.

A terceira aliança foi política. Em , uniu-se a André Rebouças. Zeca, Zé do Pato, Prudhomme virou líder, viraria lenda. Como o pai lhe negara o nome, Patrocínio foi fazê-lo. Rio Branco fez outras reformas, do ensino, da infraestrutura, e celeuma noutra parte, contra a Igreja. As Conferências Radicais mixaram. Quando Caxias decidiu se aposentar, d. A Libertadora 7 de Setembro as manteve na Bahia e, da véspera da Lei do Ventre Livre até , entregou nelas perto de quinhentas cartas de liberdade.

Pedro quebrou parte desse entusiasmo ao preterir a ala reformista dos Liberais na montagem do governo. Por quê? O cerne da Lei do Ventre Livre restava em suspenso. Em aritmética simples: mais oito igual a Sinimbu os apoiou. Duas estrelas aí despontaram. Uma seria Joaquim Nabuco, no Parlamento; falaremos dele no próximo capítulo. Zé do Pato, espalhafatoso; André, cerimonioso. Um de discursos; o outro, de obras. Complementares, viraram até compadres: Rebouças, sem prole, apadrinhou José do Patrocínio Filho.

Amizade duradoura, e é difícil imaginar o abolicionismo sem ela. Rebouças é que fez as voltas do parafuso. No retorno dos Estados Unidos, em , reassumiu a gerência das Docas de d. Pedro II e o lobby por seus projetos. Foi debalde.

O golpe mortal foi a perda de apoio do maior acionista da Companhia das Docas e apagador dos incêndios em que Rebouças se queimava, ao enterrar ganhos de uma empresa nas perdas de outras. Acabaram seus recursos de caixa, depois acabou o que guardava de reserva. A Companhia das Docas naufragou.

Correu aos préstimos do príncipe consorte e de d. Assim se encerrou sua primeira intimidade com a família imperial, eles cansados de seus pedidos, ele cansado das negativas deles.

O de professor da Escola Politécnica lograra como substituto apenas. Nessa metade dos anos , seu céu de estrelas transformou-se em purgatório, inclusive privadamente. Passava dos 35 anos sem casamento. Perito nos arranjos fincados em relações pessoais, típicos da sociedade de Corte, sabia o valor de um bom partido. Nas margens de seu caderno de notas, mistura de agenda de negócios, ideias políticas e desabafos pessoais, as moças rareiam.

Mas para aristocrata apenas valeria casar dentro do ranque. Em , entrou para um dos periódicos de tamanho médio, O Globo. Veterano em obras e empresas, Rebouças teve, naquele ano, de se submeter a exames para obter diploma e assim concorrer à primeira cadeira de engenharia civil da Escola Politécnica.

Quando, em maio de , ganhou o cargo de professor da faculdade, tinha mudado de pele. O multitarefas malogrado nas arenas empresarial e eleitoral agarrou avidamente o empreendimento novo, ensinar a trigonometria das reformas. De um lado, os Liberais Radicais tinham estimulado associativismo, imprensa, conferências como veículos de críticas às instituições imperiais.

De outro, a reforma do ensino do gabinete Rio Branco abrira as faculdades ao talento de jovens de origem social pouco nobre, que ganharam o diploma, moeda de acesso aos postos de elite.

No entanto, sem a contraparte do emprego. A republicana explodiria adiante; a abolicionista pegou fogo logo. Passar do punhado de pioneiros antiescravistas a movimento social nacional requisitou passo largo. Os franceses preferiram a via elitista, de lobby e ações no sistema político, sem expressivas manifestações populares. Patrocínio publicou em sua Gazeta da Tarde a autobiografia de Frederick Douglass, o líder negro estadunidense que encantava Rebouças. O que fizera Douglass? Escrevera, viajara, discursara.

Patrocínio tomou esse rumo. Um coisa é admirar, outra é emular um modelo. Fazer barulho em livros, manifestos, panfletos, jornais, petições, como na Inglaterra e nos Estados Unidos, teria alcance acanhado. Outro complicador era o nervo religioso da campanha anglo-americana. A campanha abolicionista brasileira, recorrendo ao direito, à moral e à ciência, seria laica.

Para recrutar aderentes e mobilizar para além das fronteiras da elite, Patrocínio buscou espaços seculares para a propaganda. Coisa que vizinhos faziam. Abolicionistas hispânicos, como os brasileiros, confrontavam instituições religiosas em vez de contar com elas. E, enquanto as emancipações inglesa, estadunidense e francesa eram história, na Espanha a conversa estava viva. Patrocínio as frequentara. Juntos, somavam os universos das culturas erudita e popular, coquetel com o qual temperariam as cerimônias cívicas de Borges.

Suas conferências seriam concertos. Dupla de ativistas negros. Patrocínio encarnava a sua de modo ambíguo. Dali se conheciam. Em , era professor de retórica em externato e aluno insubordinado — assinou manifesto reclamando dos exames da faculdade. Quem seguramente conhecia Borges era Rebouças. Escreveu carta com loas ao autor. Borges, honrado, a fez publicar no jornal. Em vez de cerimônias de entrega de cartas de alforria, com doações conseguidas antes, como fazia Borges, acharam de arrecadar durante.

Os teatros ganharam das igrejas o posto de centro da vida social. Divas, intérpretes, peças eram assunto cotidiano dos jornais nos anos e Patrocínio dilatou-o para o lado popular.

Vicente de Sousa tinha também seu pendor para o teatro: publicara um drama em , e sua esposa era uma cantante. Daí em diante saltaram atos avulsos até o tino planificador de Rebouças os amarrar sob um título: Conferências Emancipadoras. Rebouças tudo urdia, expedia convites e descrevia as sessões na GT do dia seguinte. De a , foram 44 sessões: em dezessete delas discursou Vicente de Sousa, em dezoito, Patrocínio.

Patrocínio a explicitou na Conferência 23, realizada em 26 de dezembro de todo abolicionista devia ser obrigatoriamente republicano e vice-versa.

A parte concertante, antes ou depois dos discursos, contava com lista taluda de artistas. Em 26 de setembro de , o teatro lotou, com gente assistindo do lado de fora. A sede impactou o estilo da propaganda. Assim podiam ir as senhoras, sem prejuízo das obrigações tradicionais. Flores, bandeiras, escudos, cortinas, tecidos, louros, lenços, luzes, brilhos, dourados, retratos de heróis abolicionistas, como Victor Hugo, alegorias e a insígnia da GT — por vezes em par com o barrete frígio republicano.

Ao subirem ao palco, abriam-se as cortinas. Durava umas três horas. Na parte política, o orador principal era um dos diretores das associações abolicionistas que iam surgindo. Clapp fez do trio Rebouças-Patrocínio-Sousa um quarteto. Pelo meio da década seriam dele as boas-vindas e o relato do ativismo da semana. Aplausos gerais. Repetidos aplausos. Com esse ímpeto, virou a alma das conferências-concerto. Ao fim, como nas performances artísticas, o conferencista ganhava um buquê.

Depois vinham uns quatro artistas. Associações nascentes criavam suas canções, como o Hino da Cearense, afora o uso recorrente de O guarani.

As artes produziam a atmosfera sentimental para o clímax. Efeito poderoso. Assim a camélia se converteu no símbolo do movimento.

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O formato se espalhou para além da Corte, visível, até , em dezoito províncias, isto é, havia eventos do gênero em todas as províncias, afora Piauí e Mato Grosso. Adiante, em Goiânia, apareceria o Hino Abolicionista: Eia!

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Medo fundamentado. Do sistema político veio igual defesa. Sempre que Carlos Gomes esteve no Brasil nos anos , Rebouças o empurrou para conferências-concerto na Corte.

Em , estrelou uma no Recife, promovida pela Sociedade Nova Emancipadora. O compositor pertenceu à vasta trupe que fez abolicionismo com acordes e trinados, versos e folhetins. Entre e , pelo menos 63 eventos artísticos — concertos, peças de teatro e até uma ópera — se organizaram com agenda abolicionista explícita. O comediante Vasques e o rouxinol Luísa Regadas eram ubíquos. País afora a arte entrou na propaganda. O tema adentrou a fatura das peças. Sofre Alice, menina liberta pela Lei do Ventre Livre, mantida no cativeiro por pai algoz, que se jactava de engravidar oito escravas simultaneamente e comercializar os resultados.

O conflito ultrapassava o plano subjetivo para ganhar densidade social. Por toda a parte se ouve: Sou abolicionista! Morram os escravocratas! Uma novidade: o escravo negro — em vez da branca Escrava Isaura — é digno do amor de uma aristocrata.

O romance se fecha sem final feliz: loucura para Gabriela, suicídio para Lourenço. Os abolicionistas tentaram escapulir do consagrado folhetim romântico, talvez porque, demasiado associado a Alencar, requisitasse contraponto. O mulato , de , retomou o tropo do negro corruptor de costumes de O demônio familiar , porém, em vez de diabólico, Raimundo é herói mestiço, culto, irresistível.

A caricatura fez antiescravismo pelo achincalhe. Romances atingiam setores médios letrados, a charge ia, como as peças de teatro e os versos declamados, aos estratos sociais baixos. O uso político de fórmulas artísticas familiares desestabilizou convenções sociais, ao incitar o estranhamento contra a ordem natural das coisas.

Achou no teatro sua prosódia, o drama. Que gente? Na sociedade brasileira, estamental, foi diferente. O dinamismo econômico produzia estratos diversificados, mas abafados pela lógica patrimonialista, sem que uma sociedade de mercado — e as classes dela decorrentes — se efetivasse em plenitude. Ao longo da década de , o naco original de aristocratas modernizantes, ao estilo Abílio Borges, perdurou, ao passo que as conferências-concerto garimparam nos estratos médios e baixos.

A campanha abolicionista se alastrou nesse circuito. Cabe acrescer estudantes sem estirpe, beneficiados pela reforma das faculdades nos anos No serviço de persuadi-los, dois homens, duas escolas: Rebouças, professor da Politécnica, Sousa, estudante da Medicina, levaram alunos dessas faculdades, como iam os da Escola Militar e os dos preparatórios para a faculdade.

Patrocínio listou muitos positivistas e professores entre os frequentadores. Campanhas ora apartadas, ora sobrepostas. Estudantes e artistas foram para o abolicionismo como iam para o republicanismo, aos magotes. A presença das mulheres, às quais o direito de voto era vedado, era por si de monta. Pela porta do teatro, muitas seguiram Chiquinha Gonzaga e Luísa Regadas. Os varões as conclamavam. Nela, Aluísio Azevedo, na linha da carta de Castro Alves às baianas, instigava as senhoras ao abolicionismo.

Clapp ideou, em 6 de fevereiro de , uma matinê musical exclusiva delas, com galas, poesias, sempre em meio a flores. Mas elas acharam outras ocupações para além de escudo. Uma das poucas estudantes da Faculdade de Medicina, Josefa Mercedes de Oliveira, discursou em conferência em janeiro de Muitas menininhas recitavam e um garoto discursava nas sessões. A hierarquia de gênero, marcadíssima na sociedade imperial, irrompia de tempos em tempos no movimento, com juízos moralistas de alguns ativistas.

Politicizou a vida privada. A maior das transgressões foi trazer os escravos para a política. Rebouças sonhava espalhar escolas para libertos pelo país, mas foi Clapp quem criou o Clube dos Libertos de Niterói, baluarte e modelo de empreendimentos similares, e a GT conclamava as associações abolicionistas a fundar as suas escolas. Escolas de letras com professores abolicionistas, de modo que entravam escravos analfabetos e saíam livres e ativistas. Um dos alforriados numa conferência acabou orador delas e vice- presidente da Caixa Emancipadora José do Patrocínio.

A propaganda visava persuadir. O barulho abolicionista encrespava escravistas. Em fins de , Sílvio Romero, orador convidado para uma conferência-concerto, faltou pretextando doença.

Patrocínio retrucou, na GT , que Romero propunha método de chegar nunca a lugar nenhum. Compadres de talentos diferentes. Seu elemento era a noite, e nela arregimentou seu séquito.

Rebouças era o ponderado; Patrocínio, o explosivo. Misturava o abolicionismo com outras subversões. Em janeiro de , insuflou a Revolta do Vintém, contra imposto sobre a passagem de bonde. Longe de ser um self-made man, foi, para usar o termo de Bourdieu, um herdeiro, membro da aristocracia social e da elite política.

A diferença se avista nas reações distintas a episódio similar. Enquanto Patrocínio, em menino, interrompeu o açoite a um escravo ferindo a própria cabeça, Nabuco convenceu sua madrinha a intervir em favor do cativo.

Patrocínio, arrebatado, apostava nas próprias iniciativas; Nabuco, persuasivo, acreditava no poder da autoridade para alterar destinos. Duas origens, duas socializações, dois estilos de ativismo.

Seu estilo, Nabuco o burilou na juventude. Açulado pelos vívidos debates sobre o ventre livre no Conselho do Estado, de que seu pai participava, advogou usando o estilo Gama de ativismo judicial, que se difundia entre estudantes. Decantou seu carisma, elegante e galante, e se treinou em seduzir e impressionar.

Publicou livro de poemas e artigos sobre literatura. Num deles criticou O demônio familiar , de José de Alencar, que se reencenava. Alencar se aborreceu. Trocaram farpas impressas em O Globo. As temporadas em Washington e em Londres familiarizaram-no com mundos em mudança. Aos trinta anos, quando a morte do pai obrigou a volta ao Brasil, trouxe esse modelo político de reformismo na mala. Charmoso e cativante, inteligente e audaz, assim os contemporâneos descreviam o jovem aristocrata. Exemplar lapidado de seu grupo social.

Ali estava, tal como previra o ministro estadunidense, um destinado às grandes coisas. Além de Maria Amélia, perdeu o companheiro de partido e resistência, José de Alencar. Os Conservadores controlaram o Executivo nacional de a ; a partir daí os Liberais o segurariam até Nabuco chegou à Câmara com o debate nesse estado.

De observar o pai, sabia que a política é feita de bandeiras; precisava de uma. Quando Nabuco a vestiu, foi como se tivessem sido feitos um para o outro. A envergadura valorizou a causa, que fez chamejar o cavalheiro. Irrompeu no Parlamento com a dramaticidade que Patrocínio usava nas conferências-concerto.

A tribuna se lhe abriu por seu nome de família, porém Nabuco a dominou com o manejo da sensibilidade romântica, o gesto estudado, o discurso inflamante.

Nunca mais deixaria de fazê-lo. Seu programa era o de Tavares Bastos e Rebouças: criar mercado de terras por política fiscal, o Estado a ceder ou baratear margens das ferrovias para colônias de migrantes, à maneira dos Estados Unidos. Nabuco exigiu explicações ao governo. Nabuco adotava o método bumerangue, inaugurado por Abílio Borges em apoio externo contra resistência interna.

Ataque sem valia contra Sinimbu, que caiu por discórdias internas no Partido Liberal. Sucedeu-o José Antônio Saraiva, que guardou pelo assunto o interesse do antecessor: nenhum. Nabuco, quebrando praxes, interpelou o novo chefe de governo. Discursou treze vezes. A palavra grudou na pessoa. Aferrou-se ao imobilismo, temeroso de sacudir trabalho, economia, política, enfim, a ordem, valor supremo do escravismo de circunstância.

Contudo, em 30 de agosto de , dezoito deputados, de nove províncias, votaram pela urgência em discuti-lo. Emergia um bloco abolicionista na Câmara. Sua legenda reverberava na Espanha, onde os abolicionistas emulavam suas técnicas parlamentares. Nabuco quis ser o Wilberforce brasileiro. Eram seres semelhantes.

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Alçou-se a porta-voz do abolicionismo na Câmara, apoiado por bloco de dezoito parlamentares, sete deles firmes até Todos parecidos com ele, filhos ou afilhados de líderes do Partido Liberal, com ideias modernizadoras e demandantes de reformas políticas e sociais.

Quando se dava conta do osso duro da resistência no Parlamento, Nabuco recebeu visita. O filho do conselheiro Rebouças, que morrera cego em 19 de junho, foi ao filho do conselheiro Nabuco, desaparecido ano e meio antes. Os moços, ao revés, revelaram-se críticos contundentes da ordem imperial. Um nunca seria segundo do outro. A década toda Rebouças apagaria as faíscas do choque entre as duas vaidades. Convidou Rebouças, que nunca exigiu fidelidades — membro de quantas associações reformistas surgissem.

O quarteto montou escritório e tocou O Abolicionista. À diferença das conferências-concerto, eram masculinos, por convite, com solenidade e etiqueta, em restaurantes finos. Tamanha receptividade inclinou Nabuco a explorar o método bumerangue de Abílio Borges: buscar fora do país o suporte que dentro faltava. Compareceram jornalistas, políticos e 32 abolicionistas, inclusive o pioneiro Borges. Nabuco fez traduzir e enviou à imprensa estrangeira os discursos. Nem todos os cinquenta convidados compareceram.

Uns, do sistema político, temiam macular as carreiras. Outros, da imprensa, caso de Patrocínio, hesitavam em ratificar a liderança de Nabuco. Era uma aliança entre facções diferentes. Preservava-se a autonomia de cada uma para evitar conflitos entre abolicionistas Liberais e Republicanos.

O movimento abolicionista português se encerrara havia tempo. Nabuco selava aliança com os antiescravistas da Espanha. Nabuco deixara a Espanha, mas contatou todos os indicados. Incluiu Rebouças, excluiu Patrocínio. Colocou panos quentes. Nabuco relutou e aceitou. Apenas seria mediador entre abolicionistas internacionais e brasileiros se houvesse rede nacional em vez de facções avulsas.

Como ela, temos esperança. O organizador do evento seguiu a batida, conclamando a fraternidade entre os abolicionistas de todos os países. De novo, incluiu companheiros da SBCE.

Somando relações em Portugal e nos Estados Unidos, Nabuco amarrara simpatia em oito países. Internacionalizava assim a campanha brasileira. Aclamaram Nabuco na volta. Diferenças persistiriam, sob identidade partilhada: em face dos sucedâneos estrangeiros, eram brasileiros , como em face dos escravistas eram abolicionistas.

Seriam um só movimento. Nabuco tinha a capacidade de acreditar em grandes coisas, fascinar os circundantes com a imagens delas e, desse modo, acabava por construí-las. De braço com amigo cearense, percorrera a miséria e conhecera seus combatentes. Cordeiro, o presidente, e Amaral, o vice, o converteram, em fins de , em Sociedade Cearense Libertadora SCL , a primeira do tipo fora da Corte a ganhar visibilidade nacional. A SCL nasceu com envergadura: sócios entre senhoras e senhores, profissionais liberais e sobretudo pequenos comerciantes, na maioria portugueses de nascimento ou ascendência.

Como na Corte, os escravos ganhavam espaço. Membros da SCL incitaram — e, por garantia, pagaram — estivadores do porto de Fortaleza para cruzarem os braços. A greve inviabilizou, em 27 de janeiro de , o embarque de escravos a serem vendidos para fora da província. Feito repetido em 30 e 31 e acrescido de volumosa passeata ao porto — o Libertador fala em mil pessoas, mas cabe desconto. A SCL reciprocou a gentileza com conferência-concerto em Fortaleza, em 25 de março, no estilo da ACE : passeata, poemas, lenços, flores, fogos, o hino da Libertadora.

Na outra ponta, a SCL perdeu o líder dos estivadores no primeiro levante. A polícia, porém, abriu inquérito. Chico da Matilde perdeu o emprego. Frederico Borges, dirigi-lhe um telegrama felicitando-o pela sua atitude […]. Fico ciente que a palavra aí registrada para as nossas comunicações é a palavra Trincheiras.

Também o telégrafo levava à SCL notícias dos abolicionistas estrangeiros. O abolicionismo se expandia. Nabuco saiu candidato à Câmara pelo 1o distrito da Corte graças ao senador Liberal Silveira da Mota, emancipacionista dos debates da Lei do Ventre Livre e frequentador das conferências-concerto. Os Conservadores exploraram sua ânsia por ajuda estrangeira como antipatriotismo.

Extirpou um nível do processo eleitoral, os votantes — pobres e, a juízo dos legisladores, corruptíveis — que antes elegiam os eleitores, e assim restringiu o eleitorado efetivo. O resultado do pleito desmentiu o idealismo de Liberais, como Rui Barbosa, que viam na reforma eleitoral o fim do clientelismo. Daí a , quando acabaria essa legislatura, houve dois partidos na Câmara.

Somou-se crise pessoal, com a noiva. Se o casamento se concretizasse, Nabuco ganharia capital para montar jornal e financiar a campanha abolicionista.

Talvez por isso; a família da moça se interpôs, gente do café de Vassouras, relacionada a amigos e parentes de Paulino. Nabuco fechou sem mandato, sem noiva e sem emprego. Nascido no começo do século, passou longe dos sentimentalismos de seu final.

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Era uma língua ofídica. Abolicionistas, porém acautelados por conta dos modos de fazer carreira no Império.

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Rodolfo aceitou sem dores de consciência a pasta de ministro do Império, com Rui como assessor e defensor do gabinete na Câmara, nas precisões. Dos Liberais, um se destacaria como abolicionista de peito aberto, José Mariano Carneiro da Cunha, liderança emergente em Pernambuco. Crescer requisitava ossatura organizacional. O entorno de Patrocínio se alargava.

Aglutinava grupos regionais formados nas faculdades da Corte, que congestionavam sua mesa na Confeitaria Pascoal. E Patrocínio encantava ao vivo, enquanto o charme de Nabuco demorava três semanas pelos vapores. Como as conferências-concerto, as sociedades deslancharam na capital política e cultural do Império, sede de 34 delas nos sete anos de domínio Liberal. Essa conjuntura facultou o crescimento de manifestações e associações abolicionistas. Tanto nas regiões com muitos escravos, o Sul, como naquelas com poucos, o Norte, tanto intraelite como fora dela.

Todos consideram esse ministério morto, e quem o mata é a irresistível força abolicionista. Comércio de porta fechada, bandeira a meio mastro, de tempos em tempos, um discurso; nas sacadas, debruçavam-se tapeçarias, como nas procissões da Semana Santa.

Antônio Bento chamou a si o cetro. Tomou o comando do abolicionismo paulista onde Gama o deixava, na encruzilhada entre o ativismo judicial e a trilha desordeira da SCL. Seu destino seria parecido com o do visconde do Rio Branco, que, dois anos antes, ganhara funeral de estadista. Patrocínio se deu conta de que Luís Gama valia mais.

Ficaria imaculado em seu radicalismo. Nisso, insubstituível. Sem alcançar o enterro, Patrocínio prestou homenagem mais poderosa. A burla tornou escravos os nascidos livres. Tudo respeitando o direito de propriedade e os interesses envolvidos. Usava os laços na Europa para nutrir os do Brasil e influir na política doméstica.

Enviava artigos, notícias, discursos e inseria notas sobre o movimento brasileiro no Anti-Slavery Reporter. Passou em brancas nuvens e foi morar no limbo das comissões. O ex-chefe de governo Liberal lembrava a dor de cabeça que Nabuco lhe dera em e ficou longe da areia movediça. O governante murchou o efeito, ao responder privadamente. A grande imprensa o ignorou. Trilhos paralelos, mas interligados — a locomotiva abolicionista precisava de ambos. Na sombra, Rebouças costurava, ponto duplo no esgarçado, remendos no rasgado, cônscio de que quem alicia governa melhor do que quem manda.

O mais ativo, Joaquim Serra, se adicionara à Gazeta da Tarde. De Londres, o brilho da estrela Nabuco chegava esmaecido; de perto, brilhava o sol Patrocínio.

Faltou dizer como e quando. Também o bispo diocesano e até o chefe de gabinete os receberam, mas sem se comprometer. Outra estratégia da CCE veio do repertório abolicionista inglês, o boicote. Criou um Livro de Ouro: em vez de apenas ganhar o título de benemérito, costumeiramente distribuído por Rebouças na SBCE , o doador de quantias para a compra de liberdades seria imortalizado em lista publicada semanalmente na imprensa.

Aos aliados, glória; aos inimigos, vexame. No Brasil, havia quilombos desde a Colônia, e novos surgiram durante a campanha abolicionista; eram, porém, enclaves clandestinos. Ideada em , a estratégia foi de fato deslanchada em janeiro de , visando libertar a capital do país, o Rio de Janeiro. Idealmente, assim se libertariam bairros, cidades, províncias e, se tudo desse certo, o país.

O estrato social que dera assistentes ao abolicionismo no teatro deu suporte à nova estratégia. A CCE , em conluios com abolicionistas das províncias, buscou onde operar em larga escala. Decisivo foi mesmo o fator político. No sistema centralizado do Segundo Reinado, o chefe de gabinete nomeava os presidentes de província.

Assim, trocas de gabinete acarretavam substituições no comando provincial. Presidente meio turista, podia iniciar políticas sem purgar suas consequências. Pimentel mandou saber quantos escravos tinha sob gerência. Nenhum governo fizera barulho disso, mas Pimentel fez. Um deputado provincial encaminhou o projeto à Assembleia Provincial, em fala bordada de menções aos abolicionistas da SCL.

Objetou-se inconstitucionalidade, emendou-se o projeto, no entanto, foi aprovado em julho de Força repressiva alternativa teria de se deslocar de outra província ou da Corte, convenientemente distante. Por isso, em , Patrocínio viajou a Fortaleza. Zarpou de novo em boa hora. No cortejo de jangadas, Zé do Pato conheceu Chico da Matilde, o jangadeiro que ajudara os abolicionistas a paralisar o porto de Fortaleza no ano anterior.

Coube a Patrocínio a honra de declarar Acarape o primeiro município livre do Império no primeiro dia de Sempre com mulheres e, de braço com elas, Patrocínio. Doava à causa.

Unidos da Major Gama exaltou centenário do samba na avenida

As senhoras no teatro a imitaram. Foram mais de mil escravos libertos em fevereiro de , na estatística da Gazeta da Tarde. As senhoras esquadrinharam Fortaleza, porta a porta, com o 24 de maio por limite para libertar a cidade. Em todos os casos, promotores, parlamentares e elites sociais aderiram. Mais antiescravista que anticlerical, Patrocínio abriu os braços para a inesperada presença de padres nos atos abolicionistas.

Na volta à Corte, uma massa abolicionista o recepcionou no porto. À noite, conferência-concerto. Abolicionistas franceses e espanhóis enviavam discursos. O avanço abolicionista afetava até o mercado de escravos. Em , o prazo encurtou para seis anos. O mercado previa o fim da economia escravista para Queda facilitadora da estratégia da CA de baixar alforrias.

Ganhavam fôlego rebeliões escravas, algumas delas com a ajuda de abolicionistas. Pedro quisesse avançar, o homem seria Manuel de Sousa Dantas, que a Gazeta da Tarde , num ataque de wishfull thinking , chegou a dar como novo chefe de governo.

Esse sobrinho do fundador do Império traiu o boicote e indicou Dantas, que, constrangido, declarou que nenhum ministério poderia ter sucesso ante o Partido Liberal rachado entre facções moderada e reformadora. Sancho Pimentel lamentou que a crise de dez dias em que o Partido Liberal se viu sem chefe acabasse levando ao poder Lafaiete Rodrigues Pereira. Acrescente-se que traíra os Liberais ao debandar para o Partido Republicano em , mas, justiça seja feita, infiel igualmente aos republicanos, bandeou-se de volta.

Pedro achou para socorrer o Império no quarto crescente abolicionista. No Parlamento, a minoria Conservadora ignorou o novo governo, que tampouco logrou respeito de seu partido. A convocatória em nome da ACE , assinada por Vicente de Sousa, apareceu em julho de e se concretizou apenas no maio seguinte, quando nove sociedades abolicionistas mais adesões se reuniram no Congresso Abolicionista do Rio de Janeiro.

O nome? Veio à luz em 9 de maio de , às seis horas da tarde, numa sala da Gazeta da Tarde , conforme o registro de nascimento, firmado por Rebouças, um dos pais orgulhosos. Associações majoritariamente estudantis, como as que representavam escolas superiores.

Outras adeririam depois. Rebouças foi designado tesoureiro, para administrar e arrecadar; Patrocínio chamou a si o proselitismo; e Clapp, com a respeitabilidade de comerciante, foi eleito presidente.

Acabou de fora. Nabuco também e ao mesmo tempo, só que em livro, O abolicionismo. Nisso uníssonos entre si e com textos dos demais abolicionistas. No corpo a corpo do ativismo, Rebouças e Patrocínio produziram um manifesto menos fundamentado e mais agressivo ao detalhar medidas. Fenômeno relacional, de interdependência, aprisionava senhores e escravos em sua lógica perversa.

O Estado interviria com impostos sobre a grande propriedade, crédito ao pequeno produtor, incentivando assim novos padrões de economia e sociedade. Esse desencontro tem a ver menos com diferenças de princípio que de timing. Nabuco animou o bloco parlamentar abolicionista a fim de que redigisse outros panfletos de uma série Reformas Nacionais, de que O abolicionismo seria obra inaugural.

Era Patrocínio sempre uma casa à frente de Nabuco. Rebouças os conciliou. Daí sim, 5 mil cópias seguiram para as províncias. A CA alterou a lógica abolicionista com uma propaganda de massa. Valeu-se dos tipógrafos membros e fez girar, só na Corte, 18 mil cópias do Manifesto.

Desforra do abolicionismo contra Alencar: O guarani , seu maior sucesso, teve tiragem inicial de mil. O objetivo era congregar iniciativas dispersas numa rede nacional. Daí a busca incessante por conexões e o envio de representantes a todas as províncias. Vinha a estudantada, alunos de Rebouças e Vicente de Sousa ou satélites das patuscas de Patrocínio, assim doutrinados no abolicionismo.

As faculdades forneciam levas de jovens de diferentes regiões para o abolicionismo. O nome vinha pronto: em homenagem à Libertadora Cearense, mantinha-se o substantivo e variava-se o adjetivo para indicar a província representada. Por aqui, Patrocínio foi o ativista caixeiro-viajante pioneiro. Discursava enquanto outro ativista arrecadava fundos e vendia assinaturas da GT. Muitos replicaram o método.

O grupo provincial idealmente replicaria o procedimento em nível municipal. O fecho era por conta de artista ou poeta local; na falta deles, senhoras da casa eram instadas a exibir seus dotes ao piano. Embora nem tudo se possa tributar à CA , no ano de seu nascimento fundaram-se 87 associações — no ano anterior haviam surgido apenas vinte — em catorze províncias.

O estilo de ativismo modular da CA se interiorizava. Em , a campanha abolicionista funcionava, com vigor variado, em dezessete das vinte províncias do Império.

DE BAIXAR REBOLADA GAMA

Somadas, as estratégias de semear e colaborar nacionalizaram de vez a campanha. O chefe de governo, ainda Lafaiete, acolheu esse nome como agulha achada em palheiro. Ninguém queria uma província convulsionada. A campanha avançou pelo país, com resultados diferentes.

Esse foi o caso de Amazonas e Rio Grande Sul. Porém nem demografia, nem movimento fizeram o serviço sozinhos. Tal qual Fortaleza, Manaus foi dividida em seis comitês, animados por alunos de liceu e escola normal. Segunda capital provincial se declarava livre no Império. Vicejavam no Rio Grande duas outras cepas de antiescravismo, uma Liberal, outra Conservadora. Nem por isso geraram novas províncias libertadas, pois nesses casos se carecia de um Poder Executivo facilitador.

Recife tinha ativismo antigo, quatro grupos estruturados, caso da Sociedade Nova Emancipadora, o denodo do deputado José Mariano, do bloco parlamentar abolicionista de , e o suporte organizacional da Faculdade de Direito local, onde alunos e alguns professores se engajavam desde em conferências- concerto. Durante ou logo após sua visita ao Recife surgiram onze novas sociedades, à semelhança da CA , obra de estudantes em honra às suas localidades — como a Caixa Emancipadora Piauiense.

Recife era o nó principal da rede marítima, que ligava as capitais do Norte, o que facilitava o intercâmbio interprovincial entre abolicionistas. Patrocínio deu o pontapé inicial nesse esforço que, se bem-sucedido, libertaria uma terceira capital provincial. Notificado, Cotegipe trocou de atracadouro. Gritaram que pulasse. Prendeu-o de novo, mas o estrago estava feito; a fuga virou notícia nacional. Incomodava desde Sem abandonar o lícito — conferências em teatros, ações em tribunais —, adentrava-se o ilícito: Bento rogou a Clapp que a CA escondesse um escravo fugido.

Os governos provinciais operavam como fiel da balança. Chegou tarde esse ato de força contra o fato consumado: quando deixou a província, Dias tinha renome nacional, o Clube Abolicionista do Recife o recebeu no porto como herói.

O abolicionismo se nacionalizava, expandia estratégias, ganhava força e visibilidade, com duas capitais provinciais libertadas.

Até o governo dormitivo de Lafaiete acordou de susto, mas sem o consolo de ver o pesadelo se dissipar à luz do dia. O estilo Gama de ativismo entrou até nas instituições políticas.

Na Câmara, o abolicionismo tinha poucos deputados, mas avançou no Senado. Com cargo vitalício e idade avançada, os senadores se preocupavam com o que diria deles aquela senhora, a História. O senador Silveira da Mota continuava como o principal amparo institucional do movimento. Presidiu festival abolicionista no Clube dos Libertos de Niterói e levou aos ouvidos do chefe de gabinete o tema dos africanos livres.

Para ouvi-lo apertando Lafaiete, os abolicionistas lotaram as galerias. Como muitos dos escravos existentes se encaixavam no critério ou descendiam destes, aplicar a lei de seria libertar em massa. Cotegipe e Martinho Campos, senador desde , à frente dos escravistas, engoliram a leitura; publicar era demais, obstruíram.

O ano seguinte previa eleições legislativas. O movimento precisava de candidaturas que vocalizassem sua força na Câmara. Patrocínio e Rebouças se queimavam nelas, a costurar na colcha do movimento quadrados Liberais e Republicanos entremeados de listras Conservadoras. Rebouças garantiu dinheiro, data, local e lista de celebridades. Dessa feita, o método bumerangue teve pouca ressonância, pois a maioria dos abolicionistas achava melhor se concentrar na arena doméstica.

Outra possibilidade era a Corte. Em conferência-concerto em Niterói, o orador da noite defendeu Nabuco das acusações de outros abolicionistas sobre a pouca serventia de cardeal na Europa, enquanto o baixo clero ralava na campanha. Crescimento gera faccionalismo. O abolicionismo crescia e se desunia. Puristas queriam conservar o perímetro dos poucos e bons e investir nas vias de fato: amotinar escravos, promover fugas, infernizar fazendeiros. De outro modo, tampouco haveria cidadania para ex-escravos, que permaneceriam confinados a quilombos clandestinos.

Patrocínio tinha um pé em cada canoa. Ante as vísceras abertas, percebeu o que se perdia — perdia-se o movimento. Também Clapp alertou que a parte alguma chegaria movimento fracionado e se demitiu da presidência da CA. Assembleia da CA , em novembro de , aplacou a cizânia interna e definiu a estratégia eleitoral.

Primeiro, decidiram apoiar candidatos que financiassem alforrias. Depois, concluíram que o melhor seriam candidaturas próprias. Rebouças enviou a Nabuco a passagem de navio para que voltasse ao país, com plano de lançar a chapa em 25 de março. No palco, sentaram-se em tronos dourados, espaldar alto, cercados de jardineiras. A orquestra executou o Hino Nacional.

Esforço que se concentrou em libertar quarteirões na cidade do Rio, com foco na rua do Ouvidor. A GT fez contagem regressiva, demandou e listou doações: lenço de cambraia, madrepérolas, joias, almofadas de cetim, papagaio de vidro, limpa-penas e o icônico retrato autografado da celebridade abolicionista francesa, Victor Hugo. Lafaiete manteve-se lacônico. Foi a vez de d. Deputados e senadores pró-movimento, senhoras e senhores, habituais nas conferências-concerto, lotaram a mais exuberante delas.

Rebouças encomendou a Carlos Gomes peça na qual figurassem duas jangadas libertadoras. Houve passeata e regata, preparadas pela Sociedade Abolicionista Cearense na enseada de Botafogo, com Francisco José do Nascimento, o fechador do porto de Fortaleza ao embarque de escravos, como convidado especial.

Cerca de 10 mil pessoas presentes, o abolicionismo se ostentou forte e volumoso na capital do Império. Esteve em Portugal, recebido na Câmara dos Deputados, na Espanha, e obteve altos dividendos políticos em Paris. Era o provecto abolicionista Victor Schoelcher, que recebeu Patrocínio com o entusiasmo com que antes acolhera Nabuco.

Encontrou-se com outro dessa crença, o porto-riquenho Ramón Betances, cuja biografia de Toussaint- Loverture, líder do levante escravo no Haiti, admirava. Logo perceberam, conta, uma comunidade de ideias. Betances o ajudou a reunir em um banquete em Paris abolicionistas de diversas partes. Tudo a reverberar nas imprensas internacional e doméstica. Seus intuitos ordeiros se materializaram num símbolo: as flores. Aos poucos, o repertório de técnicas de protesto se alargou. As conferências-concerto transbordaram dos teatros.

De noite e de dia, muitas vezes com banda, passeatas e manifestações viraram rotina. O deslocamento Norte-Sul era marítimo e o cais funcionava como entrecruzamento de negócios, sociabilidade e política.

Os abolicionistas marchavam às docas para acompanhar o embarque ou o desembarque de líderes e levaram consigo o estilo dos atos no teatro. A fantasia principal foi Liberdade, asas da paz desfilam-te. Primeira ala do desfile foi a Negritude do Samba. Numa homenagem aos negros sambistas e aos escravos africanos. As fantasias em tecido onçado, com arranjo de cabeça representando um dente de elefante e acabamento em dourado com plumas preta.

As baianas surgiram logo no começo da passagem da escola. Cores preto e branco com babado da saia em renda branca e avental na cor vermelho. Sambista e compositor que marcou sua trajetória no Brasil com grandes composições de samba. Fantasias nas cores preta, branco e arranjo de cabeça representando uma cartola. Uma flor representou, nas fantasias, a harmonia em suas composições. Fantasias nas cores branco, verde, amarelo e azul.

Os 80 ritmistas da bateria representaram a Corte.